O
debate entre os candidatos democratas à presidência dos Estados Unidos,
promovido ontem pela emissora CBS, teve seu ponto alto quando um dos
pretendentes, o senador Bernie Sanders, responsabilizou a política externa
norte-americana pela tensão no Oriente Médio e pelo terrorismo na Europa, que
fez mais de uma centena de vítimas em Paris na última sexta-feira.
"A
invasão desastrosa do Iraque, à qual eu me opus frontalmente, desorganizou toda
a região e permitiu a ascensão não apenas da Al-Qaeda como também do Estado
Islâmico", disse ele. "Foi a pior decisão de política externa dos
Estados Unidos em toda a sua história".
O
questionamento de Sanders tocou numa ferida de Hillary, que, como senadora,
apoiou a invasão do Iraque em 2003, pelo governo de George W. Bush, motivada
pelas falsas acusações de que o regime de Saddam Hussein possuía ligações com o
atentado de 11 de Setembro de 2001 e também desenvolvia armas de destruição em
massa.
Desde
a queda de Saddam, não houve mais estabilidade política no Iraque e o Exército
Islâmico, que assumiu a autoria dos ataques em Paris, hoje controla a região de
Mosul, uma das mais importantes áreas petrolíferas do país.
Confira aqui o vídeo de ontem
em que Sanders tocou na ferida americana:
Sanders
disse ainda que os Estados Unidos deveriam cessar com a política de tentar
mudar regimes políticos à força, como vem sendo tentado na Síria.
Leia,
abaixo, o perfil do senador que é o melhor candidato à presidência dos Estados
Unidos em 2016, recentemente publicado pela revista Carta Capital:
Bernie Sanders, uma ameaça a Hillary
Por Eduardo Graça, na Carta
Capital
Ninguém
imaginava, mas a principal ameaça às pretensões eleitorais de Hillary Clinton nas hostes do Partido Democrata
parte de um provecto senador de Vermont. Aos 73 anos, Bernie Sanders, único
parlamentar declaradamente socialista, assusta a ex-primeira-dama e
ex-secretária de Estado. As pesquisas mais recentes apontam sua impressionante ascensão
entre os eleitores: em dois meses ele reduziu pela metade a
diferença em relação a madame Clinton e empatou com a antiga colega no
Capitólio no decisivo estado de New Hampshire.
Cabelos
brancos, corpo tenso em um terno preto ao menos um número acima do ideal,
óculos simples de aro branco, sem gravata, o candidato a candidato celebrou o
feito na primeira semana de julho em um comício com 10 mil espectadores no
Veterans Memorial Coliseum, em Madison, no Wisconsin. A cidade não foi
escolhida por acaso. É uma das joias da coroa da direita americana, principal
palco da batalha entre o governador Scott Walker, apoiado pelo movimentoultraconservador Tea Party, e os sindicatos, por conta
da plataforma de austeridade fiscal e Estado mínimo defendida pelo republicano,
um dos 16 candidatos oficiais da oposição na disputa pela Casa Branca do
próximo ano.
“Hoje
fizemos história. Nenhum comício desta campanha reuniu tanta gente em um mesmo
evento. Ontem, cheguei à cidade e as propagandas republicanas me identificaram
como o extremista de Vermont. Extremista é quem nega o direito dos
trabalhadores de barganhar na mesa por melhores condições de trabalho. É quem
diz às mulheres que elas não são capazes de decidir o melhor para seus próprios
corpos. É quem as trata como crianças ao negar o direito de acesso a contraceptivos.
É quem corta os impostos de bilionários e se recusa a aumentar o salário
mínimo”, discursou.
Os
gritos de “Bernie! Bernie! Bernie!” remeteram a outro candidato, negro,
igualmente oriundo do Senado, sem projeção nacional, que em 2008 reuniu um número
de militantes em torno de um projeto político capaz de derrotar os poderosos
Clinton nas primárias democratas. Em seu comício em Madison, Sanders recebeu os
mais intensos aplausos públicos da campanha até o momento ao afirmar que “é
chegada a hora da criação de um movimento político que diga aos mais ricos de
forma decisiva: vocês não podem ter tudo”.
As
reações das cabeças coroadas do Partido Democrata revelam o temor de o senador
enfraquecer aquela que poderá ser a primeira mulher a governar os Estados
Unidos. De acordo com a revista semanal The Nation, uma ação da cúpula partidária impediu
a maior central sindical do país de anunciar o apoio a Sanders e garantir um
compromisso de neutralidade. O mago das duas campanhas presidenciais de Obama,
David Axelrod, escreveu no Twitter, logo após a divulgação das pesquisas, que
as plateias do senador lembram mais Howard Dean, outro político oriundo de
Vermont, do que aquelas de Obama.
Em 2004, Dean conseguiu galvanizar a esquerda
do partido. “Seu impacto foi inegável, mas quem venceu as prévias foi John
Kerry”, anotou Axelrod. O atual secretário de Estado, como se sabe, figura
moderada, mas sem a capacidade de levantar as massas, acabou derrotado nas
eleições gerais por George W. Bush.
Nem
todos concordam. “O novo nesta campanha até agora é justamente a
quantidade de eleitores dispostos a discutir as ideias propostas por Sanders,
que, fora de Vermont, pareciam até ontem alienígenas ao status
quo da sociedade americana”, diz a
advogada Carole Echanis, simpatizante de Sanders desde que este se elegeu, em
1981, prefeito de Burlington, a cidade mais populosa do estado vizinho ao
Canadá.
O
analista político Nate Cohn, do New York Times, lembra que, além das pesquisas e dos
comícios, Sanders demonstra poder de fogo nas arrecadações, com 15 milhões de
dólares em seus primeiros três meses de campanha, ou um terço dos números
apresentados por madame Clinton. Uma diferença: o senador recebeu doações de
mais de 400 mil indivíduos, enquanto a ex-secretária de Estado se valeu do
apoio dos mais ricos. Dados que alimentam a mensagem de Sanders de ser ele o
único candidato anti-lobby no flanco democrata e bem à esquerda da concorrente
em relação a Wall Street e à política externa. Também se lançaram na disputa
entre os governistas, sem grande repercussão, os ex-governadores de Maryland e
Rhode Island, Martin O’Malley e Lincoln Chafee, e o ex-senador Jim Webb, da
Virgínia.
“Neste
momento, ele tem números idênticos aos de Obama na campanha de 2008. Mas Obama
tinha um discurso moderado fundamental para vencer Hillary em uma disputa
apertadíssima. O que pesou foram os votos dos negros, o grupo mais conservador
entre os democratas, especialmente em temas sociais. De lá para cá, por sua
vez, Hillary ampliou a vantagem que já tinha há oito anos entre os democratas
de origem latino-americana”, pondera Cohn.
De
qualquer modo, Sanders conseguiu o feito de mover a candidatura Clinton
para a esquerda. Interessada em assegurar o apoio das principais figuras da ala
mais liberal do partido, cujas duas principais estrelas são a senadora
Elizabeth Warren, de Massachusetts, e o prefeito de Nova York, Bill de Blasio,
a ex-secretária de Estado tem defendido a ampliação de programas de combate à
desigualdade social e de redução da pobreza nos EUA, temas caros ao senador. O
receio da cúpula do partido governista é de que esse inesperado obstáculo à
esquerda impeça a favorita da legenda de conquistar o apoio dos eleitores
independentes na eleição geral, nem republicanos nem democratas, cruciais nos
estados mais decisivos na disputa de 2016. (Via: 247)
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