Apesar
do discurso oficial de que não vai se envolver na disputa pelo comando da
Câmara, o governo Michel Temer age para emplacar um nome da confiança da gestão
interina. A avaliação no Planalto é que Temer não pode “correr riscos” neste
processo, pois um parlamentar hostil ao Executivo no cargo pode comprometer a
aprovação de projetos fundamentais para a recuperação da economia.
A eleição do deputado que assumirá um mandato-tampão na
presidência da Câmara – até fevereiro de 2017 – deve ocorrer na próxima semana.
O Palácio do Planalto avalia que precisa de um “perfil
confiável” no cargo porque depende de estabilidade política para aprovar
projetos como o teto para aumento de gastos públicos. Além disso, o novo
presidente da Câmara terá a responsabilidade de analisar pedidos de impeachment
contra Temer, já protocolados na Casa, e será o primeiro na linha de sucessão
da Presidência da República, caso Dilma Rousseff seja afastada definitivamente
pelo Senado.
Temer está empenhado em unificar a base aliada em busca de um
nome de consenso para suceder ao deputado afastado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que
renunciou na quinta-feira.
‘Efeito Severino’
O receio também é o de repetir o “efeito Severino”. Em 2005, a
desarticulação da base do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou à
eleição do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE), que acabou sendo obrigado a
renunciar ao cargo e mandato após denúncias de corrupção. O Planalto também não
quer ver repetido o ambiente que Dilma enfrentou com Cunha no comando da
Câmara. Além de manobrar contra o governo em votações, Cunha autorizou o
processo de impeachment da petista.
Nos últimos dias, Temer recebeu pelo menos cinco dos 15
postulantes na tentativa de conseguir viabilizar um nome de consenso para a
sucessão de Cunha. O ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima,
também participou das articulações, designado por Temer. Geddel procurou os
candidatos pedindo acordo. “Se não houver a unificação de uma candidatura da
base, corremos o risco da eleição de um novo Severino”, disse o ministro. O
presidente em exercício já conversou pessoalmente com Fernando Giacobo (PR-PR),
Osmar Serraglio (PMDB-PR), Rogério Rosso (PSD-DF), Beto Mansur (PRB-SP) e Heráclito
Fortes (PSB-PI).
Na quinta-feira, Temer se encontrou com o presidente interino da
Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), que foi pedir apoio para ficar no cargo até
fevereiro de 2017. Maranhão ofereceu apoio ao governo para votar as propostas
de interesse do Planalto. Segundo um interlocutor de Temer, a conversa não
prosperou.
Temer tem dito que “não importa o nome” do presidente da Câmara,
mas que a base tenha 2/3 de votos, o suficiente para aprovar medidas
consideradas fundamentais, inclusive as que dependem de mudança na
Constituição, como a reforma da Previdência. Apesar disso, ele já demonstrou
maior simpatia por Rogério Rosso (PSD-DF), que representa o Centrão.
A indicação de Rodrigo Maia (DEM-RJ), que tem sido cortejado
pelo PT (mais informações na pág. A6), também poderá receber o apoio do
Planalto. O governo sabe que, no caso de Rodrigo Maia ser o candidato de
consenso, terá de fazer muitos acenos a ele, que ficou contrariado por ter sido
preterido na escolha do líder do governo na Câmara.
O entendimento do Planalto é que o PMDB não deveria postular o
cargo porque continuará comandando a presidência do Senado no próximo ano. Um
assessor palaciano avalia que o partido não pode repetir o erro do PT, “que não
aceitou repartir forças”. Outro auxiliar destacou que, nesta eleição, há uma
peculiaridade que dificulta as negociações: o mandato-tampão. (Via: Estadão)
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