Em tempos de inflação sufocante e
desemprego florescente, surgiu uma saída para os agrupamentos de brasileiros
encalacrados. Todas as famílias em dificuldades devem dissolver-se como
famílias e reagruparem-se como clubes de futebol. As famílias não têm a quem
recorrer. Os clubes dispõem da simpatia do governo e do apoio da bancada da
bola no Congresso. Para as famílias, nada. Para os clubes, parcelamento
camarada das dívidas, perdão de encargos e a renda de loterias novas para
reforçar o caixa.
Sem
fazer muitos questionamentos, os senadores aprovaram na noite desta segunda-feira a medida
provisória que cria o Profut, Programa de Modernização do Futebol Brasileiro.
Sob atmosfera de ‘vamos lá minha gente’, parcelaram-se em 240 meses as
bilionárias dívidas fiscais, previdenciárias e trabalhistas dos clubes. Para
abastecer-lhes as arcas, criaram-se duas novas loterias. Como os mimos já
haviam passado pela Câmara, seguiram para a sanção presidencial.
O
futebol brasileiro é feito de dívidas e nostalgia. Suas glórias só existem no
replay esmaecido dos lances de um passado remoto.
Embora
geridos por homens de bens, os clubes nacionais se esqueceram de dar lucro.
Deus, como se sabe, é brasileiro. Mas o diabo é europeu. E aproveita-se da penúria
dos clubes para levar embora craques mal apartados da mamadeira. Sobre os
gramados nacionais, ermos de talento, brotam apenas ideias exóticas — como mais
esse Probola.
A
proposta aprovada no Congresso impõe um lote de exigências de gestão e
responsabilidade financeira. Que serão desrespeitadas ao longo do tempo. Até o
lançamento de um novo plano de socorro. Sob Lula, criou-se a Timemania, uma
loteria cuja renda foi destinada prioritariamente aos clubes. Dizia-se à época
que a grana serviria para liquidar-lhes as dívidas. A nova operação-resgate é a
mais eloquente evidência de que não funcionou.
Pois
agora, além de rolar os débitos dos clubes, o Estado deu à luz mais duas
loterias: uma raspadinha chamada Lotex e uma bolsa de apostas sobre os
resultados de competições esportivas. São escândalos esperando para acontecer.
A exploração não ficará com a Caixa Econômica Federal. A proposta enviada para
a sanção de Dilma autoriza a privatização.
Sete
em cada dez brasileiros que testam a sorte nos jogos de azar oficiais têm renda
inferior a três salários mínimos. Além da Timemania, o cassino estatal já
administra os seguintes jogos: Loteria Federal, Loteria Esportiva, Loteria
Instantânea, Mega-Sena, Lotomania, Quina, Dupla Sena, Lotofácil e Lotogol. Na
prática, todos esses jogos são uma forma disfarçada de tributar o pedaço mais
pobre da arquibancada.
Juntos,
os clubes de futebol conseguem muito mais do que as famílias brasilerias.
Injusto, muito injusto, injustíssimo. Não resta a você senão correr para fundar
o Fulano Futebol Clube, que se juntará ao Beltrano Clube de Regatas. Ex-cartola,
o senador Zezé Perrela (PDT-MG) celebrou o novo Probola: “Não há
nenhum tipo de privilégio. Houve, sim, um bom senso do governo de entender que,
salvando o futebol está salvando a alegria do povo''. Reagrupado como clube,
você pode requerer do governo a troca da sua alegria por algo mais palpável. (Via: Blog do Josias de Souza)
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