Hoje, na rua, ele se enquadra, rígido, como para uma foto de 3x4 e olha
para a câmera desafiador.
– Relaxa, assim você dá medo. Diante a sugestão da repórter, Fabio respira, sorri, mexe a boca, agita
os ombros e se solta. Solta até uma longa e forçada gargalhada pouco depois (a
única) quando perguntado se já pagou muito dinheiro a policiais.
– Vamos deixar esse assunto quieto. Melhor, né? Fabio Pinto dos Santos, conhecido como Fabinho São João, era um dos
múltiplos braços armados do segundo escalão na cúpula do Comando Vermelho, a maior facção criminosa do
Rio, criada em 1979 no presídio Cândido Mendes, na Ilha Grande.
As crônicas policiais o descrevem como um dos principais líderes do comando, chefe do
tráfico do morro do São João e de Manguinhos, na zona norte da cidade,
sequestrador, invasor de morros rivais, e figura presente em múltiplos
confrontos armados com a polícia. Ele minimiza seu papel: “Tenho amigos, tenho
moral na facção, sou respeitado, mas eu não tomava decisões.”
Fabio, no entanto, não nega sua participação. Descreve alguns dos seus
crimes e fugas mas, após sete anos seguidos preso, e com mais de 20 anos de
prisão nas costas, quase a metade da sua vida, quer apagar seu currículo e
recomeçar.
Suas anotações policiais se referem a roubos, extorsão mediante
sequestro, homicídios, porte de armas e entorpecentes, formação de quadrilha e
latrocínios, embora tenha sido condenado em apenas três
processos: um pelo assalto a um carro forte em 1989, que causou duas mortes, e
mais duas sentenças por associação ao tráfico de drogas.
“Foi tudo por burrice. Entrar no crime foi o maior erro da minha vida. É
uma vida terrível, de muito sofrimento para mim e minha família. Eu só quero
mais uma oportunidade”, promete.
Depois de sair da prisão em setembro passado, com sua sentença cumprida,
Fabio, avô e pai de cinco filhos, procurou a Central
Única das Favelas (CUFA), uma Ong que visa à integração dos jovens
de favelas dominadas por facções rivais, e escreveu uma carta de boas
intenções, que entregou em mãos a um juiz e um desembargador.
Nela afirma sua determinação de sair do crime e seu medo de ser vítima
de — ele não generaliza — “maus policias”. “Tenho medo de ser
sequestrado e ter que recorrer aos amigos [da facção] para pagar um resgate
porque eu não tenho mais nada. Se eu fizer isso vou ter que devolver o favor, e
isso significa voltar. E prefiro morrer a voltar ao crime”, diz ele.
O temor pode parecer algo estrambólico, mas ele conta que em 1996 ficou
em cativeiro por cinco dias no porão de uma casa, sem comida e sem banheiro,
algemado junto a outros três criminosos, sob o controle de policiais. Não foi
liberado, afirma, até que seus familiares pagassem mais de 30.000 reais, dois
carros e joias. “Se aproveitavam das boas condições da minha família”, afirma.
Fabio relata também com frieza o sequestro, em 2009, da sua mulher e do filho,
que tinha dez meses, durante umas nove horas, e vários outros episódios
obscuros em que policiais corruptos o levaram, encapuzado, à beira da morte.
Fabio aparece na entrevista, embaixo do viaduto de Madureira, sede da
CUFA, vestido com uma polo da Reserva, jeans e sapato esportivo branco. Dirige
um carro que, novo, vale uns 100.000 reais. “Tudo que tenho hoje é da minha
família. Eles sempre estiveram bem. Eu perdi tudo”.
Fabio nunca foi um traficante comum. Filho
de um contador e uma professora, criou-se no bairro de classe média, o Engenho
Novo, e frequentou escolas particulares. Nunca lhe faltou nada e não subiu o
morro até se tornar o dono de um. Fabio tampouco consome drogas e diz que passa
mal com maconha, lhe provoca vômitos. “Sei que soa hipócrita porque eu vendia,
mas sou contrário, não suporto droga. E não sou o único: 98% dos traficantes do
Rio hoje não usam droga, no máximo fumam maconha”.
Fabio não foge das perguntas nem mesmo dias depois da entrevista, é
educado, não recorre a gírias e fala bem o português. Ele terminou o ensino
médio e passou num vestibular na prisão. Houve uma época em que queria estudar
Gestão Ambiental, hoje quer estudar Direito. Na prisão, conta que ele sempre
era chamado para falar com as autoridades, e acha que por isso era considerado
uma espécie de líder.
Sobre a guerra desatada nas prisões entre
sua facção e o Primeiro Comando da Capital, depois de anos de
sintonia, ele afirma que soube pela imprensa e não faz questão de opinar. Apenas diz: “Uma guerra agora? Quem vai sair vencedor disso num momento em que
o Governo está sufocando tanto? Teriam que se unir, não para fazer o mal, mas
para lutar para que a situação na prisão melhorasse.”
Do roubo de
carros ao domínio do morro: A primeira vez que Fabio pegou uma arma foi quando ele tinha uns 17
anos. Foi um degrau a mais numa carreira que começou cedo, roubando carros e
motos para passear com as namoradas e “tirar onda” com os amigos. As facções e
o tráfico naquela época não tinham a presença e o peso que têm hoje no Rio.
Ele, embora continuasse fazendo cursos e levando uma vida familiar normal,
sempre queria mais e passou a assaltar postos de gasolina. “Me embriaguei de
sucesso. Naquela época, depois da ditadura, via tudo aquilo como uma revolução,
contra o Estado, contra tudo. Estava totalmente enganado”.
No final, sua fama como motorista o levou a ser procurado por criminosos
mais organizados que ele e seus amigos do bairro. Começou a assaltar bancos.
Foi no assalto a um carro forte em 1989 que foi preso. Morreu um policial e um
segurança. Ele assegura que não atirou e que nunca matou ninguém. “Sinto muito
por eles, pô”. Foi sentenciado a 28 anos de prisão, pena que acabou reduzida e
substituída por outras penalidades que viriam mais tarde.
Um ano depois da sua detenção, em 1989, Fabio fugiu do presídio Ary
Franco, no Rio, hoje conhecido pela convivência dos
detentos com ratos, insetos e morcegos. Ele e mais seis
serraram uma das grades, e com ajuda de uma corda feita de panos pularam de uma
altura de 10 metros. A grade serrada foi depois colada com grãos de arroz
cozido, conta a crônica da fuga do Jornal do Brasil.
Em 1991, foi recapturado, e em 1992 acabou sendo beneficiado por um habeas
corpus que deu a ele o direito de aguardar em liberdade o julgamento
do episódio do carro-forte. Foi nesse período que, diz ele, se envolveu de vez
no tráfico. A sentença chegou em 1998, e Fábio ficou preso por mais dez anos,
até conseguir progressão da pena para o regime semiaberto. Na primeira visita
que fez à sua casa, desapareceu. Explica: “Lá de dentro do presídio me avisaram
que eu seria sequestrado, e resolvi sumir”.
Em 2009, com documentos falsos, e quando tinha formado uma nova família
em Santa Catarina, foi recapturado. “Pensei que ali ia poder começar de novo,
que ninguém ia me achar...”, diz ele, mas sua prisão era, na época, uma das
prioridades da polícia. O acharam seguindo os passos da sua família, que foi
comemorar o nascimento de seu filho mais jovem no sul do país. Fábio, com
vários quilos a mais, foi preso e mandado para um presídio federal de segurança
máxima.
Foi seu pior pesadelo: 22 horas do dia trancado na cela diminuta, e a
única coisa a fazer era malhar, orar, malhar, orar, e a dádiva de duas horas de
banho de sol, “que nunca eram duas horas”, e livros de Stephen King e de
autoajuda. Era muito tempo para pensar. “Quando você entra ali, não pode nem
levantar a cabeça. O primeiro que te dizem é que você não tem direitos e o
segundo é que você não pode esquecer que não tem direitos”, lembra.
Foi na prisão em Mossoró (RN), a 2.400 quilômetros da sua família no
Rio, que Fábio pendurou um lençol para se enforcar. No minuto final, recuou. E,
hoje, diz que se convenceu de que devia ser seu fim como criminoso. Sua mãe,
que nunca aceitou um presente dele, deixando claro que achava que vinha de
dinheiro sujo, adoeceu. Seu pai morria e seus filhos cresciam sem ele. É falando
deles, depois de uma hora de conversa, que Fabio quebra pela primeira vez.
Chora.
A facção apoia sua saída, diz ele: “A maioria quer sair, só não sabe
como”. "O crime não permete que você finja que saiu. Não existe essa
possibilidade. E eu jamais aceitaria, nunca daria essa oportunidade se não
tivesse a certeza de que ele tomou a decisão de ficar de fora", assegura
Celso Athayde, presidente da CUFA, que ofereceu a ele um emprego como
coordenador de um programa de motoboys para ex-presidiários de facções
rivais.
– Você acha que conseguiria se acostumar a ganhar pouco e trabalhar
muito?
– Consigo. Eu só quero restaurar minha dignidade.
Blog: O Povo com a Notícia
Via: site msn
