Ao longo de 15 dias,
Pernambuco acumula 46 mortes pelo novo coronavírus. Só nesta quarta-feira
(8), a Secretaria Estadual de Saúde (SES) confirmou 12 desses óbitos, a maior
marca diária registrada desde 25 de março, quando o Estado anunciou a primeira
vítima fatal de covid-19.
Em território pernambucano, assistimos a uma escalada
no volume de mortes que intriga autoridades de Saúde e especialistas, além da
sociedade em geral. Atualmente, considerando a proporção de mortes por total de
confirmações (401 casos), o Estado tem letalidade de 11,5% - mais do que o
dobro do cenário nacional, com 5%. No quesito de coeficiente de mortalidade,
que mede o risco de a população morrer em decorrência de uma doença, Pernambuco
é a quarta Unidade da Federação com maior taxa, empatando com o Ceará e atrás
de São Paulo, Amazonas e Rio de Janeiro.
Sabemos que, no caso
desta pandemia, a letalidade nem sempre é uma medida precisa porque há casos
que não são detectados porque geram sintomas leves e, pelo protocolo do
Ministério da Saúde (MS), não são prioritariamente testados. Se fossem
contabilizados, assim como vem sendo feito com os casos graves, a letalidade
poderia ser menor. O vizinho Ceará, com 1291 casos confirmados e 43 mortes (35
delas a partir dos 60 anos), tem uma letalidade de 3,3%, bem menor do que
Pernambuco, que tem 34 óbitos no grupo a partir dos 60 anos, a faixa etária em
que mais se observa o maior número de vítimas fatais.
“Pernambuco é
reconhecido por ter vigilância ativa e transparente. Fazemos busca ativa de
todos os casos de srag (sigla para síndrome respiratória aguda grave, que pode
ser causada pelo novo coronavírus e outros agentes infecciosos) e realizamos a
testagem de todos os óbitos por essa condição. Estamos ampliando a capacidade
de testagem, seguimos a estratégia proposta do MS, de examinar casos de srag e
óbitos. E isso (a alta letalidade) se explica porque Pernambuco foi o Estado
que mais testou srag no Nordeste”, explicou em coletiva de imprensa
online, o secretário Estadual de Saúde, André Longo.
Para ele, existe a
clareza de que, por fazer “vigilância ativa de forma célere, dando
transparência aos números, os casos de óbito em Pernambuco têm crescido em
proporção, muitas vezes, diferente de outros Estados”. Na visão do secretário
de Saúde do Recife, Jailson Correia, como a covid-19 é uma doença nova, fica
difícil fazer qualquer cálculo comparativo em relação à gravidade que ela
apresenta em localidades diferentes.
Retrato infiel
Os números
divulgados pelos órgãos estaduais espelham, de longe, um retrato fiel da
pandemia. Epidemiologistas não têm dúvidas de que os dados relativos ao novo
coronavírus estão claramente subnotificados no País, devido ao déficit de
testes, principalmente em alguns Estados. Os exames são essenciais porque são
eles que servem para mensurar a dimensão da epidemia. “Para se estimar o quanto
uma nova doença impacta numa determinada população, falamos em mortes para cada
proporção de habitantes. É muito comum expressarmos mortalidade, comparando com
lugares diferentes, em número de mortes para cada 100 mil habitantes, num
período de observação”, disse Jailson.
Com base nos números
das Unidade da Federação apresentados pelo MS, o coeficiente de mortalidade por
100 mil habitantes (considerando a projeção do Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística para 2020) de Pernambuco é o quarto do País, ao lado do
Ceará. A taxa, em ambos os Estados, é de 0,5. Os três primeiros: São Paulo
(0,9), Amazonas (0,7) e Rio de Janeiro (0,6). Todos estão com o coeficiente
acima do nacional, com 0,4.
Para Jailson, a
vigilância ativa e a busca de esclarecimento para cada uma das mortes que
acontece no Estado, por srag, “artificialmente joga esse número (associado aos
óbitos) para cima e, por isso, temos aqui, proporcionalmente ao número de
testes realizados, um número maior de mortes”. Ele ainda acrescenta que não há
outro indicativo que possa sugerir que Pernambuco tenha uma letalidade maior.
“Isso será mostrado com o tempo, com ampliação também da testagem e observação
da população da cidade ou do Estado.”
A médica
epidemiologista Ana Brito, pesquisadora da Fiocruz Pernambuco, explica que
ambos os indicadores (letalidade e coeficiente de mortalidade) só seriam
eficazes para medir gravidade da doença e risco de morte na população se fossem
confiáveis. “Mas ambos estão subenumerados porque o critério de definição de
casos e óbitos é puramente operacional e está sustentado num único exame
laboratorial (RT-PCR), que tem a chance entre 30% e 40% de dar falso-negativo.
Se não são contadas as pessoas infectadas por outros critérios de diagnóstico,
não se tem vigilância adequada”, diz Ana Brito. (Via: Jc Online)
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