Apesar dos avanços na contratação de policiais penais e na construção de novas unidades para reduzir a superlotação, o sistema prisional de Pernambuco ainda convive com problemas históricos, como a manutenção de cantinas sob o controle de detentos e o poder exercido por alguns deles, que impõem regras e extorquem colegas dentro dos pavilhões — em um ambiente marcado por falhas de fiscalização do Estado.
A operação deflagrada pela Polícia Civil de Pernambuco na semana passada para combater a corrupção no Presídio de Vitória de Santo Antão, na Mata Sul do Estado, voltou a lançar luz sobre velhas práticas do sistema prisional.
A investigação apontou que o ex-chaveiro Alexandre Saturnino de Paula comandava uma cantina e cobrava preços superfaturados, além de negociar o aluguel de camas nas celas e outros privilégios para os presos. Segundo a Polícia Civil, o esquema, que envolvia a extorsão de colegas de pavilhão e familiares, contava com o apoio do ex-diretor Emanuel Roberto Franca de Lima e de outros dois policiais penais.
Os três profissionais foram presos temporariamente.
Desde 2006, uma portaria estadual proíbe a construção de cantinas e determina a desativação das existentes. Vinte anos depois, porém, muitas ainda permanecem nos presídios, conforme relatos de profissionais da segurança.
O Presídio de Igarassu, no Grande Recife, é um exemplo. Vistoria recente da Defensoria Pública Estadual constatou que chaveiros continuam dando ordens nos pavilhões, ditando regras e até escolhendo presos que podem comandar as cantinas para venda irregular de mercadorias e com preços superfaturados.
A unidade foi alvo de operação da Polícia Federal em fevereiro e abril de 2025, com prisões de policiais penais, de um ex-diretor e de um ex-secretário estadual. Mesmo assim, as irregularidades permanecem.
RECOMENDAÇÕES SOBRE FIM DAS CANTINAS
Em março de 2024, a Secretaria Nacional de Políticas Penais recomendou que os Estados fornecessem aos detentos itens básicos de higiene e alimentação, além de cama e produtos para banho, para evitar que eles ficassem reféns do comércio superfaturado, apontado como um fator que alimenta o crime. O órgão também recomendou a desativação das cantinas.
No mesmo sentido, o Ministério Público de Pernambuco (MPPE), por meio de inquérito civil, vem cobrando e monitorando as ações do Estado para que as cantinas encerrem suas atividades.
SILÊNCIO DA SEAP
Durante três dias, a reportagem solicitou à Secretaria Estadual de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap) informações oficiais sobre quais unidades ainda mantêm cantinas, mas a pasta não quis se pronunciar. A reportagem também questionou a situação do presídio de Vitória de Santo Antão, mas não recebeu resposta. (Via: Jc)
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