Por Thomas Traumann, do Globo – Num aforismo atribuído ao escritor norte-americano Mark Twain, a história não se repete, mas rima. Na semana final do primeiro turno, a expectativa é se mais uma vez assistiremos ao “antipetismo de chegada”, o fenômeno nomeado pelo economista Maurício Moura para classificar o crescimento dos candidatos de direita nos dias anteriores às eleições. Isso aconteceu com Jair Bolsonaro em 2018 e 2022. A dúvida é se o filho Flávio vai repetir o pai.
Ponto crucial do resultado de domingo será o debate da TV Globo, marcado para quinta-feira. Segundo a Quaest, 11% dos eleitores de São Paulo e Rio e 13% dos de Minas Gerais estão indecisos. E 20% dos paulistas, 19% dos fluminenses e 18% dos mineiros admitem que ainda podem trocar de candidato.
Trago ainda uma crítica do livro “Heróis por acaso”, do meu amigo Octavio Guedes. Boa leitura!
1. A força do antipetismo de chegada
Faltando menos de uma semana para o primeiro turno, a principal pergunta da campanha é se o voto útil antipetista pode levar Flávio Bolsonaro (PL) a superar numericamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Batizado de “antipetismo de chegada” pelo economista Maurício Moura, fundador da empresa de pesquisas Ideia e colunista de O GLOBO, o fenômeno de encolhimento dos candidatos menores em favor de um adversário mais viável para derrotar o PT é visto desde 2014. É como uma antecipação do voto de segundo turno.
Na quinta-feira (24), o Datafolha mostrou Lula com 44% dos votos válidos contra 40% de Bolsonaro e 16% dos demais candidatos. Há um consenso nas campanhas de que, somados, Lula e Flávio farão perto de 90% dos votos válidos, o que significa que seis pontos percentuais dos candidatos nanicos tendem a migrar para os dois principais. A maioria deve ir para Bolsonaro. A dúvida é se essa transferência ocorrerá antes ou depois do primeiro turno.
Na última semana da campanha de 2014, Aécio Neves virou sobre Marina Silva quando o eleitorado concluiu que ele tinha mais chances de derrotar a presidente Dilma Rousseff. Em 2018, a onda Jair Bolsonaro arrastou os tucanos que abandonaram para sempre Geraldo Alckmin e o PSDB. Em 2022, Bolsonaro cresceu na reta final e fez 39 pontos percentuais de vantagem sobre a terceira colocada, Simone Tebet.
A volatilidade é uma marca das pesquisas na última semana de primeiro turno. Na pesquisa espontânea do Datafolha, 18% ainda se dizem indecisos. Entre os que já escolheram o candidato, 3% ainda citam o ex-presidente Jair Bolsonaro, que está inelegível. Mesmo com a campanha no seu auge, 20% dizem que ainda podem mudar o voto. Entre os eleitores de Lula e Bolsonaro, o índice de decididos é de, respectivamente, 87% e 85%.
Este foi o penúltimo Datafolha antes do primeiro turno. Compare os resultados das pesquisas neste mesmo momento em eleições anteriores e o resultado oficial:
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Nota-se um padrão: o resultado do candidato petista ficou abaixo das pesquisas em 2014 e 2022, enquanto o principal antipetista usou a última semana para explodir em 2018 e 2022. Os terceiros colocados foram dragados pelo voto útil.
“O potencial de derrotar um petista no segundo turno acaba sendo um critério fundamental para a decisão de voto. Acreditamos que a oposição vai se beneficiar novamente do antipetismo de chegada, quando há uma mudança de voto de última hora em favor do candidato mais bem posicionado para ganhar do PT. Como aconteceu em 2014, 2018 e 2022. Portanto, há uma enorme probabilidade de um segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro. Porém, a depender do perfil de não voto (brancos, nulos e abstenção) e da força do antipetismo de chegada, não fiquem surpresos se a eleição acabar dia 4 de outubro, inclusive com vitória da oposição”, escreveu Moura em O GLOBO.
Creio que são muito baixas as possibilidades de uma solução no primeiro turno, mas é razoável supor que as primeiras pesquisas do segundo turno já vão mostrar Flávio Bolsonaro à frente de Lula acima da margem do empate técnico, com a natural migração da maior parte dos votos de Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) para o bolsonarismo. Lula terá um desafio neste segundo turno. Ao contrário das campanhas passadas, nesta não há nenhum candidato de centro-esquerda ou centro onde ele possa capturar novos votos.
2. O primeiro duelo
Marcado para esta quinta-feira (1º), a partir das 21h30, o debate presidencial da TV Globo pode decidir a eleição. Será o primeiro encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro. Ronaldo Caiado e Augusto Cury, os únicos outros candidatos com representação no Congresso, também foram convidados.
Com os dois candidatos empatados na margem de erro tanto no primeiro quanto no segundo turno, o debate da Globo pode ser o ponto de virada desta campanha. Para entender o peso desse encontro, compare quantas pessoas ainda se dizem indecisas nos oito estados que representam 80% do eleitorado brasileiro:
Agora, saiba quantos eleitores ainda admitem mudar de voto para presidente nos oito maiores colégios eleitorais do país:
Embora a campanha de TV tenha perdido o monopólio da atenção do eleitor, o histórico recente mostra a sua importância. Em 2014, Aécio Neves foi ao segundo turno depois do desempenho raquítico de Marina Silva. Em 2018, depois do atentado em setembro, Jair Bolsonaro foi hospitalizado e se recusou a confrontar Fernando Haddad. Sem debates, Haddad nunca teve uma chance. Em 2022, Lula perdeu a chance de ganhar no primeiro turno depois de um bate-boca com o padre Kelmon, língua de aluguel do bolsonarismo.
No único debate desta campanha, na Band, sem Lula e Bolsonaro, o escritor Augusto Cury se destacou e chegou a pontuar 10% nas pesquisas. Tão relevante quanto o debate em si, são os cortes que as campanhas farão para internet. Na campanha para prefeito de São Paulo, em 2024, Pablo Marçal chegou a liderar as pesquisas pelos cortes eficientes feitos para as redes sociais. Com os dois candidatos tão empatados, qualquer erro pode mudar o resultado da eleição.
3. O candidato teflon
Se há uma constante na campanha presidencial do candidato Flávio Bolsonaro é ser desmentido pela investigação do caso Master. Desde março, quando surgiu o primeiro sinal de sua ligação com Daniel Vorcaro, Bolsonaro vive a rotina de negar algum fato que o aproxima do banqueiro corrupto para ter de admitir logo em seguida que estava mentindo.
Em julho, Bolsonaro disse: “Nunca entrei em avião de Vorcaro”. Mas, na quinta-feira, a revista Piauí mostrou que, em 19 de janeiro de 2025, Bolsonaro viajou da Flórida para Brasília em um jato Legacy, com sua mulher, filhas e o advogado Willer Tomaz, seu amigo encrencado em nove de cada dez escândalos de Brasília. Uma das três cotas do avião era de Tomaz e outra de uma empresa de Vorcaro. O avião é o mesmo que transportou o ministro Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci.
De acordo com a agência de checagem Aos Fatos, esta foi a 43ª mentira de Flávio Bolsonaro falando sobre Daniel Vorcaro.
Tão surpreendente quanto a capacidade de o candidato de subestimar o surgimento da verdade é o fato de as revelações não mudarem os seus índices nas pesquisas. Depois que fechou o armistício com a madrasta Michelle, em julho, Flávio sobe gradativamente nas pesquisas.
É um fenômeno que a ciência política norte-americana chama de “candidato teflon”, em que nenhuma acusação gruda nele. A expressão, criada nos anos 1980 para designar como o presidente Ronald Reagan sobrevivia aos escândalos na sua gestão, comprova a competência da estratégia bolsonarista. Em vez de gastar tempo se confrontando com os fatos, Bolsonaro investe no seu maior ativo eleitoral: ele não é Lula. Para muitos eleitores, isso é o suficiente.
4. Crítica: ‘Heróis por acaso: Improváveis personagens que mudaram a História do Brasil’
Em 4 de abril de 1955, o candidato a presidente Juscelino Kubitschek começou sua campanha em Jutaí, no interior de Goiás. Um temporal obrigou o comício a ser improvisado no galpão de uma concessionária de carros e, usando a carroceria de um Studebaker, JK se dispôs a responder perguntas dos eleitores. Um deles, o corretor Antonio Soares Neto, o Toniquinho, venceu a timidez e perguntou:
— Já que Vossa Excelência está anunciando o propósito de cumprir a Constituição, queria saber, caso seja eleito, se construiria a capital no Planalto, conforme consta?
A possibilidade de construção de uma nova capital no interior do Brasil já constava nas Constituições de 1891, 1934 e 1946, mas era daquelas ideias que ninguém levava a sério. Até aparecer Toniquinho. Surpreso, o candidato respondeu:
— Cumprirei na íntegra a Constituição, e não vejo razão para ignorar esse dispositivo. Durante o meu quinquênio, farei a mudança da sede do governo e construirei a nova capital! — anunciou JK.
Nas suas memórias, JK disse que, naquela noite, compreendeu que a nova capital seria a “meta síntese” do plano de fazer o país avançar 50 anos em 5.
A história do Brasil é feita de Toniquinhos, escreve o repórter Octavio Guedes no seu novo livro, “Heróis por acaso: Improváveis personagens que mudaram a História do Brasil” (editora Máquina de Livros; 144 páginas; livro: R$ 69; e-book: R$ 52). Em vez de enxergar a História como um drama épico em que homens comuns se mostram sublimes ou heróis se provam diante do destino, Guedes a conta por meio de seus coadjuvantes, os personagens improváveis que não tinham a menor ideia ou intenção de mudar o rumo do país.
Dono de um dos raciocínios mais rápidos do jornalismo brasileiro, Guedes faz do inusitado uma matéria-prima. Ele reconta o atentado a Carlos Lacerda, que gerou a crise que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas, pela incompetência de um matador de aluguel míope e daltônico; a aprovação da ilegalidade do Partido Comunista Brasileiro por um deputado que se deixou fotografar de cuecas; e como uma desilusão amorosa ajudou a criar o maior partido fascista fora da Itália. Não há heróis no livro de Guedes. Há o acaso, o oportunismo e o azar. É o retrato de um Brasil tão brasileiro.
5. Fique atento
Na reta final, Flávio Bolsonaro vai insistir no voto útil dos eleitores de Cury e Caiado, enquanto Lula vai bater bumbo das medidas populistas de proibição das bets e perdão das dívidas com mais de dois anos de inadimplência.
Haverá novo embate no STF. No domingo, o ministro Flávio Dino anulou a decisão do colega e rival André Mendonça e liberou publicações nas redes sociais sobre a notícia de que Flávio Bolsonaro iria, se eleito, retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de “padroeira do Brasil”.
Para os governos estaduais, atenção ao crescimento de Douglas Ruas, que pode levar a disputa no Rio para o segundo turno, e de Cleitinho Azevedo, em Minas, e de Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul, que podem abrir uma margem grande sobre os segundos colocados. A Quaest solta nova pesquisa nesta segunda-feira (28) pela manhã.
