Uma bebê nasceu em junho de 2026, em João Pessoa, marcando um caso inédito no sistema público de saúde da Paraíba: Iara é filha de Daniel Valentim, um homem trans que gerou a criança, e de Gisele Castro, uma mulher trans. A gestação foi planejada pelo casal, que mora em Esperança, no Agreste do estado, e enfrentou desafios médicos e emocionais até o nascimento.
“A gente quer falar para a sociedade que família tem a ver com amor, respeito e união. Então, se você tem aí esses três ingredientes, você tem uma família”, afirmou Gisele ao G1.
“No meu caso, uma mulher trans toma um hormônio feminilizante. E, no caso dele, homem trans, toma um hormônio masculinizante. Aí é muito ruim, por um certo lado, porque, quando a gente tem, quando a gente quer engravidar, a gente tem que parar com esses hormônios. E aí as características masculinas e femininas, elas voltam nos nossos corpos, o que traz algo chamado de disforia, que é um desconforto”.
A gravidez só aconteceu no fim de 2025, após nova tentativa. Segundo Gisele, a interrupção dos hormônios pode provocar disforia de gênero, condição marcada pelo desconforto com características físicas.
“Casais trans não são estéreis. O que acontece com alguns casais trans é porque o sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida, a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter”, explicou.
Mesmo com assistência, Daniel relatou insegurança quanto ao parto, principalmente por não conhecer a equipe que estaria de plantão no dia.
A busca por um ambiente mais acolhedor levou o casal ao Hospital da Mulher, em João Pessoa. A unidade já realizava atendimentos voltados à população trans, o que pesou na decisão. Com apoio do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, o pré-natal foi transferido no oitavo mês.
Acompanhe o Blog O Povo com a Notícia também nas redes sociais, através do Facebook e Instagram

“Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou Daniel.
Para Gisele, compartilhar a história ajuda a ampliar a visão sobre diferentes configurações familiares.
“Então, às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família.”
