Há 16 anos, a cearense Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, que fingiu ter 12 anos e enganou uma família que a "adotou" em Santa Catarina, denunciou os próprios pais.
Na época, Amanda foi até a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), em Fortaleza, e apresentou a versão de que era vítima de abusos sexuais e de um "ritual de magia negra".
Yamara Alves Lavor Viana é defensora pública há mais de 10 anos e, em 2010, atuava como delegada adjunta da DDM quando Amanda Maria chegou à delegacia se passando por vítima.
Yamara lembra que "visualmente, de cara, você olhava para a Amanda e suspeitava que ela não tinha a idade que dizia ter".
"Apesar de já se passarem 16 anos, como era um caso muito diferente, o caso da Amanda chamou a atenção. Ela alegava que era vítima dos próprios pais, que era obrigada a praticar relações sexuais com o pai e com outras pessoas a mando dele, bem como era submetida a rituais de 'magia negra'", contou Yamara em entrevista ao Diário do Nordeste.
"Objetos como agulha e chaves eram colocados no corpo dela. Foi feito um exame e constatado que havia esses objetos no corpo dela", disse.
A reportagem questionou a Polícia Civil do Ceará (PCCE) para saber se a investigação acerca desse caso foi encerrada e se alguém foi indiciado, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria.
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Mulher tinha 'fala fantasiosa e desconexa'
Enquanto delegada, Yamara disse ter apurado que Amanda tinha diagnóstico de transtorno psiquiátrico e fazia tratamento, "mas ela não aceitava o diagnóstico e o tratamento não era contínuo".
"Ela já teve internações em hospitais psiquiátricos e tinha uma fala fantasiosa, desconexa e agressiva. Nesse contexto, ficou verificado que Amanda não era vítima, mas que praticava crimes para obter alguma vantagem", segundo a defensora.
Yamara disse ainda que chegou a expedir uma guia solicitando um exame de arcada dentária para apontar a real idade de Amanda, "mas não recorda se ela chegou a fazê-lo".
Ainda em 2010, no início do desenrolar da investigação, "ficou claro" para a então delegada que "o que ela falava era desconstruído pelas testemunhas".
"Os investigadores foram atrás de testemunhas que pudessem confirmar ou não a versão que ela relatava. As testemunhas falavam que Amanda era uma pessoa muito difícil, que ela era maior de 18 anos e tinha comportamento agressivo, com hábito de incriminar os pais. Depois, não conseguimos ter mais contato com ela", contou.
Amanda Maria Souza de Oliveira foi indiciada por estelionato
A Polícia Civil de Santa Catarina indiciou, na última sexta-feira (5), a cearense Amanda Maria Souza de Oliveira pelos crimes de estelionato e falsa identidade.
A defesa de Amanda pediu a realização de um exame psiquiátrico, o que foi autorizado pela Justiça de Santa Catarina na quarta-feira.
"Eu fiz esse pedido porque há informação nos autos de que, em um determinado momento em que ela foi presa, ela estava com 200 agulhas sob a pele. Isso me chamou a atenção. Atrelado a isso, ela apresentava lesões no corpo", justificou o advogado Rafael Luiz Siewert.
A defesa afirma que apenas depois do resultado do exame irá se manifestar "de forma mais aprofundada" sobre as conclusões do inquérito. Por enquanto, a data para o exame não foi agendada.
Essa não é a primeira vez que se pede uma avaliação psiquiátrica de Amanda. Em 2024, o Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) havia solicitado um exame de sanidade mental para ela.
Na época, ela tinha procurado atendimento em um hospital infantil localizado em Florianópolis, e os profissionais de saúde identificaram agulhas dentro do corpo dela. Contudo, o pedido não foi atendido.
Cearense foi "adotada por uma família
A mulher viveu durante 14 meses com a família, até que uma parente denunciou o caso à polícia.
Amanda foi presa em flagrante e admitiu ter aplicado o mesmo golpe nas cidades de Curitiba (PR) e Nova Iguaçu (RJ), além dos estados de Minas Gerais, Goiás e Ceará.
Ao chegar a Joinville, Amanda havia procurado uma igreja, onde contou sobre os maus-tratos dos quais teria sido vítima e disse que havia fugido da família no Pará.
Contudo, segundo as investigações, ela não disse ter 12 anos. Por meio de um pastor, foi apresentada a uma família e disse ter 18 anos e estar em busca de emprego.
Após se aproximar da família, começou a dizer que estava passando por grandes dificuldades financeiras, agravadas por problemas de saúde. Foi assim que foi acolhida na casa, onde viveu por 14 meses.
Somente depois de conquistar a total confiança da família ela mudou a narrativa: disse ter 11 anos e justificou a aparência de adulta afirmando que tomou hormônios durante a infância de forma forçada.

