Policiais civis da Paraíba que deveriam atuar no combate ao tráfico de drogas foram flagrados negociando entorpecentes com facções criminosas, desviando apreensões e orientando suspeitos a escapar da Justiça. O esquema foi revelado por gravações obtidas pelo Fantástico (TV Globo) e resultou na prisão de um delegado e dois investigadores na última terça-feira (2), durante operação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado) e da Polícia Civil.
Em outro momento, ele compara o tráfico a uma atividade comum: "É o mesmo que você estar vendendo qualquer outra coisa. Só que, em vez de você estar vendendo relógio, você está vendendo droga".
Acompanhe o Blog O Povo com a Notícia também nas redes sociais, através do Facebook e Instagram
Em um dos áudios, o investigador menciona outras fontes de renda ilegal: "Eu trago tanto hormônio como suplemento desde 2007. Os 'anabols' [anabolizantes] deixam para mim mais do que o meu salário do Estado. A polícia paga uma merreca".
Ele também afirmou conhecer detalhadamente a rotina de criminosos: "A gente conhece os vagabundos, a mãe dos vagabundos, o irmão do vagabundo, a avó do vagabundo, onde ele morava, onde ele mora, conhece tudo".
Para o Ministério Público e a Polícia Civil, esse conhecimento era usado para manter relações com traficantes. Em outro áudio, ele afirma: "O cara que mais vende aqui sou eu. Se for para me sustentar só com o salário da polícia, não dá, não".
Há ainda registros em que menciona contatos para venda de drogas ao Comando Vermelho.
A apuração começou em maio de 2025, após um traficante denunciar o roubo de uma carga de drogas por policiais. Segundo a Polícia Civil, parte dos entorpecentes apreendidos não era registrada oficialmente e acabava revendida.
Os investigados negociavam com ao menos quatro criminosos e avisavam previamente sobre operações policiais, permitindo fugas.
Entre os beneficiados estaria José Alexandrino Júnior Lira, o Júnior Lira, investigado por participação em ataques do chamado Novo Cangaço a bancos e carros-fortes no Nordeste.
Em uma gravação, Lira afirma que contava com apoio policial para vender drogas. Em outra, relata oferta para expandir o comércio até Mossoró, no Rio Grande do Norte.
"O fato de serem agentes do Estado dá àquelas pessoas um poder de quem está ali, ciente, acreditando realmente que está blindado. É algo muito grave e que precisa ser combatido com toda força", disse o procurador-geral da Paraíba.
A defesa de Mão Branca declarou que não é crível que policiais negociem drogas abertamente e que o caso pode configurar assassinato de reputação.
Já o advogado de Braz sustenta que não há elementos que comprovem participação consciente do delegado.
A defesa de Júnior Lira disse que a inocência será demonstrada e que ele é alvo de perseguição policial.

