Consumidos pelo fato consumado da
perda absoluta do poder, Dilma Rousseff e Eduardo Cunha se equipam para travar
uma nova batalha. Os dois guerrearão nas páginas dos livros que prometem
escrever sobre os bastidores do impeachment. Dessa vez disputarão o enredo de
um pedaço da história brasileira que se tornou o pesadelo do qual ambos tentam
acordar.
Dilma e Cunha têm todo o direito de publicar relatos sobre
suas quedas. Mas as versões despertarão mais interesse pela fofoca de bastidor
do que pela relevância penal ou historiográfica. Madame e seu algoz
converteram-se numa sucessão de poses. E qualquer relato que forem capazes de
fazer serão suspeitos porque traduzirão os fatos a partir da visão de duas
poses.
Ainda que resolvam não mentir, Dilma e Cunha tendem a
selecionar as verdades que lhes convém contar. Dilma chamará Cunha de corrupto.
Talvez recorde que o personagem estreou na vida pública em 1989, como
colaborador de Paulo César Farias, tesoureiro da campanha presidencial de
Fernando Collor.
Entretanto, não haverá no livro de Dilma nenhum capítulo
explicando por que permitiu que Cunha e o próprio Collor se tornassem sócios do
petismo no assalto à Petrobras. Tampouco haverá na obra meio parágrafo sobre os
motivos que levaram Dilma a manter numa vice-presidência da Caixa Econômica um
apadrinhado de Cunha, hoje delator da Lava Jato.
Cunha também chamará Dilma e o PT de corruptos. Mas não dirá
nenhuma palavra sobre as razões que o fizeram cuspir no prato apenas depois que
já não era mais possível comer nele. Acusará Dilma de ter autorizado os
repasses de verbas sujas que João Santana, o marqueteiro das campanhas
petistas, entesourou na Suíça. Mas não confessará a origem espúria dos milhões
que ele próprio ocultava no estrangeiro.
Dilma e Cunha habituaram-se a dizer que foram cassados por
vingança. Ambos têm razão. Mas é improvável que escrevem em seus livros que o
sentimento de revide nasceu de uma traição entre comparsas. Talvez omitam o
jantar que tiveram no Alvorada, durante o qual chegaram a selar um acordo de
proteção mútua.
Ela lançaria mão de uma alegada influência no Supremo
Tribunal Federal para interceder por ele junto a cinco ministros da Corte. Ele,
em contrapartida, enviaria ao arquivo todos os pedidos de impeachment
formulados contra madame. Uma mão sujaria a outra.
No fundo, é como se Dilma e Cunha se preparassem para
escrever pedaços de suas autobiografias. Nelas, continuarão sendo personagens
principais. Ainda não decidiram se morrerão no final. (Via: Blog do Josias de Souza)
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