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sábado, 8 de agosto de 2026

Bispo do PE vira alvo de críticas após liderar caravana pela democracia no Sertão

O bispo da Diocese de Afogados da Ingazeira (PE), Dom Limacêdo Antônio da Silva, 65, se tornou alvo de ataques de uma ala católica mais ligada à direita por realizar, no fim de semana passado, uma caravana pela democracia no sertão do estado.

O ato inter-religioso, além da Igreja Católica, reuniu diversas entidades civis e movimentos populares e contou com centenas de participantes. Nas redes sociais da diocese, muitas pessoas reclamaram do que classificaram como desvirtuamento do propósito eclesial e chamaram o bispo de um “militante de esquerda”.

Nomeado para o cargo pelo Papa Francisco em outubro de 2023, Dom Limacêdo minimiza as críticas e diz que elas fazem parte da “mesma democracia que defendo”. Ao mesmo tempo, afirma que a igreja precisa atuar como “formadora de consciência”. “A ignorância só interessa aos ditadores”, ataca.

O bispo se posiciona em questões como a necessidade de regulação das redes sociais. “Tem que ter regra, tem que ter lei, porque muitos absurdos são cometidos”.

“Jesus não falava só do céu. Jesus falava das questões terrenas, da fome, da justiça, da maldade. Muitas vezes querem colocar uma religião somente do céu. Religião é aqui, é o religar, aproximar as pessoas”, defende.

Não é a primeira vez que o bispo foi atacado. Em dezembro último, Dom Limacêdo foi atacado após a homilia na missa de Natal de 2025. Na ocasião, ele usou a mensagem bíblica para criticar os atos de vandalismo de 8 de Janeiro, os acampamentos em frente aos quartéis e os questionamentos sobre as urnas eletrônicas.

À época, as falas dele circularam nas redes sociais de perfis bolsonaristas, que fizeram críticas. Ele então recebeu apoio de outros bispos e entidades.

Apoio fez nascer ato

Segundo Dom Limacêdo, a ideia da caravana nasceu de um gesto de solidariedade de amigos e de movimentos sociais que o acompanham.

Apesar das dezenas de comentários críticos sobre sua postura, Dom Limacêdo minimiza as hostilidades que sofre e garante que elas são restritas ao ambiente virtual. “Pessoalmente ninguém veio até mim fazer esses ataques, foi só pelas redes sociais. Em celebração, nunca [houve reação]”, garantiu.

O bispo diz que, após os episódios de dezembro, sentiu a necessidade de ampliar o debate para reflexão sobre o compromisso com a democracia e a dignidade humana.

“O evangelho não é um calmante, nunca foi, nunca pode ser. O evangelho é provocante, é provocador. Ele acalma os que sofrem, mas também provoca uma reflexão naqueles que causam sofrimento”.

Para o religioso, a defesa do sistema democrático está diretamente ligada à palavra de Deus. “A democracia supõe a participação. Deus quer dialogar com seu filho”, explicou, citando ainda o Papa João Paulo 2º para afirmar que “Deus não é solidão, Deus é família”.

Dentro dessa lógica, ele argumenta que sistemas não democráticos ferem o direito das pessoas e, por tabela, são contrários ao que prega a Bíblia.

“Jesus que curava, mas perguntava, pedagogicamente: ‘O que é que você quer de mim?’ Ele não impunha. A democracia dialoga. A democracia, ela cresce dando lugar às pessoas crescerem”, afirmou.

Um dos desafios que ele acredita que a igreja precisa enfrentar é o das fake news. “Elas pulam e festejam a ignorância.”

Muita gente não sabe nem por que tá querendo isso [fim da democracia]: se soubesse, não queria porque é uma loucura o que já teve no Brasil na década 1960. A falta de conhecimento leva muita gente a dizer bobagem.
Dom Limacêdo Antônio da Silva

Jesus de esquerda?

Questionado pelo UOL se considera Jesus uma pessoa de esquerda, o bispo refuta rótulos. “Jesus está ao lado da vida e de quem defende e promove a justiça e a paz”.

Ao ser questionado se ele se considera um militante de esquerda, Dom Limacêdo invocou o Papa Leão 14 para responder. “Quando ele foi atacado por Trump respondeu: ‘Eu anuncio o evangelho’. Meu papel é esse. A gente vai esmiuçando e colocando as consequências históricas, pastorais, desse evangelho de Cristo”.

Sobre as eleições deste ano, Dom Limacêdo afirma que sua atuação não será baseada em opiniões pessoais e que vai seguir as diretrizes institucionais da Igreja Católica.

“A tarefa da igreja é formar consciências. A igreja aponta critérios, eu não vou apresentar um critério meu, um pensamento só meu. Vou apresentar o pensamento colegiado dos bispos dessa grande nação, os critérios apresentados pela CNBB”, concluiu. (Via: UOL)

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