O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenta se descolar da crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). No entanto, sabe que o escândalo sobre o envolvimento do magistrado com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro é, até o momento, mais prejudicial à sua imagem do que as denúncias contra o próprio filho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Outros três episódios que resgatam o tema corrupção nas eleições deste ano abalaram a popularidade e o desempenho de Lula nas pesquisas. Mas nenhum com potencial tão grande para custar até mesmo sua reeleição.
Embora os aliados do presidente acreditem que ele ainda vencerá a eleição por margem apertada de votos, o temor sobre o resultado eleitoral se alastrou. Por isso, os gestos e declarações de Lula estão sendo calculados minuciosamente, para ele não fugir do script desenhado pelo marqueteiro e se enrolar mais nas teias de Moraes. Há um monitoramento constante das redes sociais para verificar a associação do petista com o magistrado e uma expectativa grande no Planalto e na campanha sobre o resultado da próxima grande pesquisa eleitoral.
A checagem foi feita nos outros momentos, à medida que as crises foram surgindo. O menor abalo ocorreu no primeiro episódio, resultado da 9ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 18 de junho. Foi naquele instante que o Caso Master chegou mais perto do PT e do Palácio do Planalto.
O presidente, que estava surfando nos ataques aos opositores envolvidos com Vorcaro, viu Jaques Wagner (PT-BA), então líder do governo no Senado, ex-ministro da Casa Civil de Dilma Rousseff e seu amigo de décadas como alvo das investigações. Mas o caso logo se dissipou. Não gerou problemas reais à campanha de Lula.
Em agosto, as suspeitas de corrupção do escândalo de fraudes no INSS chegaram à antessala do gabinete de Lula, quando foi revelado que seu ex-chefe de gabinete do petista, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, recebeu dinheiro da lobista Roberta Luchsinger, a prestadora de serviços do Careca do INSS. Dias antes da divulgação, Lula adotara uma vacina exonerando Marcola. E o caso também não colou no presidente.
No mesmo mês, documentos da Polícia Federal indicaram que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tinha participação ativa num suposto esquema de tráfico de influência, mas era preservado pela lobista Roberta Luschsinger. Lulinha também foi citado como destinatário de pagamentos de empresário com interesses no governo. Desta vez, o estrago foi maior para o presidente. Ele foi forçado a cobrar publicamente explicações do filho, que, diga-se de passagem, continua morando na Espanha, sem dar uma palavra.
Lula elevou o tom em entrevistas, resgatou a retórica de perseguição e também reforçou os ataques ao seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Sofreu abalo nas pesquisas. Porém, entre os petistas, havia uma leitura otimista de que era possível driblar o tema ampliando os questionamentos sobre o caso Dark Horse que atinge a candidatura bolsonarista ao Planalto.
Mas o caso Moraes é diferente. A tentativa de inverter o alvo e se aproveitar de vazamentos contra o ministro André Mendonça, relator no Supremo dos casos Master e INSS, pode fazer o tiro sair pela culatra. O tema mobiliza a opinião pública.
Há uma simbiose na imagem de Lula e Moraes. A ligação entre eles se consolidou após os episódios do 8 de Janeiro. A atuação central do ministro nos inquéritos dos atos golpistas e julgamentos fez o público criar uma associação direta entre os dois. Por isso, a derrocada do ministro desgasta muito mais a imagem do presidente do que a de seus opositores.
Como revelou o Estadão, Daniel Vorcaro e Moraes trocaram 51 mensagens em 21 dias. O conteúdo aponta suspeitas de que o ministro cometeu crimes de corrupção, exploração de prestígio e advocacia administrativa. Não bastasse isso, o magistrado usou novamente o inquérito das fake news como instrumento de vingança pessoal.
E apesar do esforço do procurador-geral da República, Paulo Gonet, para jogar tudo para debaixo do tapete, e do presidente do STF, Edson Fachin, para empurrar o tema com a barriga, esperando o tempo passar, a população está cansada das arbitrariedades supremas. O termômetro das redes também mostra que o eleitor não esqueceu os elogios de Lula a Moraes.
O estrago começou a ser tão evidente para a campanha do petista que ele precisou gravar um vídeo cobrando reforma do Judiciário e investigações. Mas a mensagem é genérica e anódina.
Agora fica uma pergunta aguardando resposta: Até quando Lula e Fachin vão carregar Moraes nas costas?
*Roseann Kennedy é jornalista pós-graduada em Ciência Política e Economia. Há mais de 20 anos em Brasília, cobre as relações entre os poderes e os bastidores da política. Foi colunista política na CBN e Globo News, editora-chefe e âncora no SBT e SBT News. Pernambucana, torcedora do Náutico, mas também apaixonada pelo Palmeiras. (Via: Estadão)
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