Com um saldo de mais de 9 milhões de casos e 220 mil mortes confirmadas, a pandemia provocada pelo novo coronavírus completa, no final deste mês, um ano no Brasil.
Foi na última Quarta-Feira de Cinzas, 26 de fevereiro de 2020, que o Governo de São Paulo confirmou o diagnóstico de um homem de 61 anos que, poucos dias antes, havia retornado de uma viagem à Itália, um dos primeiros países ocidentais a sofrer com a escalada da crise sanitária enquanto por aqui se brincava o Carnaval. Como se um aviso do destino nos dissesse para aproveitar, ao máximo, qualquer dose de folia antes que os difíceis novos tempos chegassem.
Onze meses depois, a rotina continua restritiva.
Só em Pernambuco, os números de casos diários atingem a casa dos milhares,
enquanto os de mortes variam de uma a três dezenas.
São altos. Depois de um período de estabilidade e
queda no segundo semestre, permitindo uma flexibilização nas restrições nos
diversos setores econômicos, a curva voltou a subir em dezembro, comprometendo
as festas de Natal e Ano-Novo.
É
nesse contexto que o País começa a vacinar a população, o que, de fato, traz
uma projeção de saída da pandemia. Mas isso não vai se concretizar nem tão
cedo, visto que a entrega de insumos e a distribuição de doses seguem um ritmo
lento.
Até agora, menos de 2% dos brasileiros tomaram a
vacina - muito longe dos 70% necessários para se atingir a imunidade coletiva.
Por isso, até que se retorne a uma situação de maior segurança sanitária, os
cuidados de prevenção à Covid-19, em especial o uso de máscara, a lavagem das
mãos e o distanciamento social, devem ser mantidos.
Por outro lado, desde novembro, vigora no Estado o
“novo normal”. Isso significa que a maioria dos escritórios, estabelecimentos
comerciais e áreas de serviço e lazer - além das escolas, que voltaram a
funcionar nesta semana - têm permissão para abrir desde que cumpram protocolos
baseados naqueles cuidados mencionados no parágrafo anterior. Daí vem o alerta.
Agente infeccioso transmitido por vias
respiratórias, o Sars-Cov-2, nome científico do novo coronavírus, se espalha
com facilidade por qualquer lugar, em superfícies das mais diversas, inclusive
em pisos e paredes, embora a principal forma de transmissão continue sendo de
uma pessoa para outra, por meio de tosse, espirro e fala, com a liberação de
gotículas de saliva.
Em estudo divulgado em maio do ano passado,
pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) procuraram avaliar
a presença do vírus em locais de grande circulação próximos a unidades de saúde
em Belo Horizonte. Foram analisados cerca de mil pontos em paradas de ônibus,
calçadas e praças. Em 50 deles, o micro-organismo foi encontrado.
“Não
sei dizer se é uma taxa baixa ou alta porque foi a primeira análise desse
tipo”, pondera o professor de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas
(ICB) da instituição, Jônatas Abrahão. “O que o estudo mostra não é
necessariamente o risco de transmissão por superfície, mas que pessoas
infectadas estão circulando nessa região e contaminando os aparelhos públicos”.
Embora não haja uma precisão sobre o quanto de
carga viral em uma superfície seria suficiente para contaminar alguém, sabe-se
que manter a higiene das mãos e evitar tocar o rosto são determinantes para se
evitar a infecção.
“Existe um risco [pelo contato com objetos], mas a
gente não sabe medir. O que a gente sabe é que uma pessoa infectada pode
compartilhar um ponto de ônibus com alguém não infectado, e aí a transmissão
pode acontecer pelo ar”, diz o professor Jônatas Abrahão.
Pontos de risco
Como a principal forma de contaminação ocorre
pelas vias respiratórias, o grau de exposição ao vírus em cada lugar depende de
fatores sociais. Pesquisadores de universidades norte-americanas projetaram uma
escala, dividida por “risco baixo”, “médio” e “alto”, para os tipos de ambiente
e atividade comuns no dia a dia (veja no infográfico abaixo). Entre os
critérios que servem de base para a classificação, estão a ventilação dos
espaços e a possibilidade de gerar aglomerações.
A escala parte de locais abertos, como parques e
praias, onde atividades como caminhada, corrida de bicicleta e piquenique ao ar
livre são consideradas de baixo risco. Pesquisador do Instituto Aggeu Magalhães
(Fiocruz-PE) e chefe do Serviço de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP) do
Hospital das Clínicas de Pernambuco (HC-UFPE), o infectologista Paulo Sergio
Ramos lembra, porém, que, mesmo nesses lugares, não se pode relaxar nos
cuidados.
“Esses locais, por serem arejados, fazem com que
as pessoas tenham uma tendência a frequentá-los sem máscara”, afirma. “Além
disso, superfícies de cadeiras, mesas e bancos compartilhados por muitos
usuários podem também aumentar o risco”. O documento dos pesquisadores
estadunidenses recorda ainda o potencial de atrair multidões, o que precisa ser
evitado.
Os locais a que se deve ter mais atenção, e
classificados como de risco alto do ponto de vista epidemiológico, são os
ambientes fechados e capazes de juntar muita gente em uma área pequena. É o
caso de cinemas, teatros, templos religiosos, avião e transporte público, mas
também de boates e casas de festas e shows, onde o consumo de bebida alcoólica
favorece o descuido com os protocolos de segurança.
À parte, ficam as escolas, que congregam
diferentes tipos de espaços de convivência e reúnem pessoas de diversas faixas
etárias. Por isso, as instituições obedecem a protocolos específicos, sempre
levando em conta a necessidade do uso de máscara e o distanciamento social.
Cuidados
Para entender como as pessoas estão buscando se
prevenir do coronavírus, a Folha de Pernambuco percorreu espaços de grande
circulação no Recife. Morador de Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, o
comerciante Jean Rildo da Silva Júnior, de 20 anos, vai todos os dias à praia
de Boa Viagem, na cidade vizinha, onde vende lanches e bebidas.
Com máscara e borrifador de álcool nas mãos, ele
conta que perdeu um tio para a Covid-19 e que a avó, a dona da barraca onde
trabalha, também teve a doença e chegou a ficar entubada.
Desde então, redobra os cuidados. “Aqui os
clientes só entram de máscara”, afirma. “A circulação é muito grande, e o vento
também. Às vezes, a pessoa passa, dá uma tossida, sem máscara, não vê, bate em
outra pessoa, que esfrega o rosto sem querer. Tem que ter sempre cuidado.
Então, quando eu chego em casa, já deixo a máscara de molho e vou direto para o
banheiro”.
O estudante Elias Germano de Oliveira Júnior, 23,
costuma caminhar pela orla de Boa Viagem. Mesmo andando ao ar livre, ele diz
que não deixa de usar a máscara. “Tem perigo e, de certa forma, grande, porque
a gente passa e respira perto de muitas pessoas”, comenta.
Outro espaço que preocupa é o transporte público.
Profissional de saúde que atua no atendimento a pacientes com Covid-19, a
técnica de enfermagem Iara Amaral, 37, usa o ônibus e o metrô para sair de
casa, em Jaboatão, para os dois locais de trabalho, em Santo Amaro, Zona Norte
do Recife, e em Olinda.
No trajeto, ela identifica muitos passageiros que
não seguem os protocolos. “Eu encontro muitas pessoas que não usam máscara e
não se cuidam. Acho que não dão muito crédito a esse vírus. Mas a gente vê a
realidade nos hospitais e muitas famílias perdendo parentes por conta desse
descuido”, avalia.
Por meio de nota, a Companhia Brasileira de Trens
Urbanos (CBTU) informou que está com 50% da demanda de usuários e que, na linha
Centro, circulam dez trens com intervalo de oito minutos e pediu a compreensão
dos passageiros para que, caso a lotação fique “acima do normal”, esperem a
próxima composição.
O órgão destacou ainda ter reforçado a limpeza das
estações e dos trens durante a pandemia e que o uso de máscara é obrigatório em
todo o sistema de metrô. A empresa também disse realizar, desde março do ano
passado, uma campanha educativa contra o coronavírus.
O Grande Recife Consórcio de Transporte
Metropolitano (GRCTM) também se manifestou por nota, dizendo que a fiscalização
do uso de máscara dentro dos terminais é feita de forma educativa e que já
distribuiu 38 mil peças para quem não tinha o protetor.
Já dentro dos ônibus, o órgão informou que o
motorista tem o poder de solicitar o uso do acessório aos passageiros e as
empresas operadoras devem instruir motoristas, fiscais e cobradores sobre a
importância do uso do item de proteção. Sobre a lotação dos veículos, o consórcio
afirmou que, desde 25 de janeiro, 100 coletivos voltaram a circular, reforçando
a frota das linhas mais movimentadas, e que, na próxima semana, mais 50 ônibus
estarão novamente à disposição dos usuários.
Por medo do contágio, há quem prefira fazer exercícios
ao ar livre do que em academias fechadas. O autônomo Anderson Oliveira, 36, é
uma dessas pessoas. Ele mora no bairro da Torre e, quatro vezes por semana,
atravessa a ponte para se exercitar na Jaqueira, Zona Norte da Cidade.
“Eu acho melhor porque é mais ventilado”, comenta.
Aluno da Academia Recife no parque, Carlos Barbosa, 32, vai todos os dias. “A
gente só pode entrar de máscara e, na entrada, recebe álcool e um pano [para
passar nas máquinas]”, conta. “Quando eu chego em casa, deixo os sapatos fora,
boto a roupa para lavar e tomo um banho”.
Infectologista do Hospital Universitário Oswaldo
Cruz (Huoc), o médico Bruno Ishigami avalia que o risco de contágio pela roupa
é pequeno e, por isso, não requer um cuidado diferente do que já se toma cotidianamente
ao colocar as peças para lavar.
“O mais importante é que a gente consiga manter o
foco no uso de máscara de forma adequada, cobrindo boca e nariz, para garantir
uma vedação e impedir que o vírus chegue às vias respiratórias”, argumenta. (Via: Folha PE)
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