Um dos maiores escândalos da última década na segurança pública de Pernambuco, a descoberta do furto de 1,1 mil armas de fogo e de 3 mil munições em um depósito da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core) da Polícia Civil, cuja sede ficava no bairro de São José, área central do Recife, completou cinco anos sem que os acusados pelo crime tenham sido punidos.
O processo criminal com 19 réus, incluindo quatro comissários da Policia Civil que estão em liberdade, continua em tramitação no Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), há mais de um ano na fase de alegações finais. Não há data para sentença.
Os réus respondem por crimes como organização criminosa, comércio ilegal de armas de fogo, peculato, lavagem de dinheiro e corrupção ativa e passiva. A defesa dos policiais nega as acusações.
Na investigação, interceptações telefônicas apontaram que as armas de fogo desviadas foram comercializadas para facções criminosas por R$ 6,3 mil a 6,5 mil, cada uma, enquanto as submetralhadoras custavam R$ 22 mil. Uma caixa com 50 munições era vendida por R$ 350, revelaram depoimentos.
Integrantes ou pessoas ligadas a pelo menos duas organizações criminosas - incluindo detentos do Estado - foram identificados e viraram réus.
Um processo administrativo disciplinar em desfavor dos policiais civis também está em andamento na Corregedoria da Secretaria de Defesa Social (SDS). Ainda sem prazo para conclusão e possível punição dos servidores acusados.
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DESCOBERTA DE FURTO REVELOU FALHAS GRAVES DE SEGURANÇA
O sumiço das armas de fogo foi descoberto por um comissário da Polícia Civil responsável pela manutenção e conserto do armamento em 5 de janeiro de 2021, após o retorno de férias. Só então um inquérito foi instaurado e uma auditoria realizada para identificar o número exato do desvio.
Em agosto do mesmo ano, depois da operação que prendeu policiais acusados pelo crime, a Polícia Civil realizou uma coletiva de imprensa e anunciou oficialmente o número de 326 armas subtraídas.
No entanto, um documento assinado pelo delegado Adelson Barbosa em fevereiro de 2021 e enviado à Polícia Federal revelou um cenário mais grave: 1.131 armas, entre metralhadoras, pistolas e revólveres, haviam desaparecido da Core. A informação foi revelada pelo Jornal do Commercio.
Em abril de 2022, durante audiência de instrução e julgamento dos réus, o mesmo delegado prestou depoimento por videoconferência e, questionado pelo Ministério Público, confirmou que mais de mil armas haviam sido furtadas do depósito.
No depoimento, o delegado declarou ainda que a lista das armas subtraídas havia sido repassada à Polícia Federal para que os dados fossem incluídos no Sinarm (Sistema Nacional de Armas), do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A perícia do Instituto de Criminalística não encontrou sinais de arrombamento no depósito onde os materiais estavam guardados. Mas não havia câmeras na área interna. Apenas uma do lado de fora, apontada para a porta de entrada, sem funcionar 24 horas por dia.
Entre as armas desviadas, uma parte pertencia à Guarda Municipal de Ipojuca, no Grande Recife. Elas estavam guardadas na Core enquanto os profissionais passavam por treinamento. As pistolas haviam sido doadas pela Polícia Rodoviária Federal.
Em depoimento à polícia, em janeiro de 2021, um detento revelou que, anos antes, havia se dirigido à Core para comprar munições destinadas a uma facção criminosa - confirmando que os furtos não eram recentes na unidade policial.
Apesar da gravidade dos fatos, em novembro de 2022 a Justiça concedeu liberdade provisória a 14 acusados, sob a justificativa de excesso de prazo para que o Ministério Público, em conjunto com a polícia, apresentasse os laudos das perícias realizadas nos aparelhos celulares dos réus.
PROCESSO CRIMINAL TRAMITA EM SEGREDO DE JUSTIÇA
O processo criminal contra os 19 réus (eram 20, mas um policial civil morreu menos de um mês após ser preso, em 2021) tramita em sigilo na Vara Regional de Crimes Contra a Administração Pública, Ordem Tributária, Lavagem de Dinheiro e de Delitos de Organizações Criminosas do TJPE.
Segundo o advogado Marcellus Ugiette, responsável pela defesa de um réu, a expectativa é de que, em fevereiro, o prazo das alegações finais chegue ao fim.
"O prazo que o Ministério Público usou para fazer suas alegações finais foi igualmente concedido às defesas dos réus para oferecimento de suas razões derradeiras. A decisão [sentença] ocorrerá após a entrega dessas peças por todos os réus", explicou.
DEMORA NA CORREGEDORIA DA SDS
Dos quatro comissários da Polícia Civil réus no processo, três estão aposentados e um na ativa. No âmbito administrativo, a Corregedoria da SDS concluiu uma investigação preliminar em dezembro de 2024. Essa análise durou quase quatro anos, revelando um quadro de morosidade incompatível com a gravidade e a urgência do caso.
A investigação preliminar resultou em processo administrativo disciplinar (PAD), que pode resultar na cassação das aposentadorias dos três policiais e na demissão do quarto.
Em nota, nesta sexta-feira (9), a Corregedoria afirmou que "os servidores supostamente envolvidos foram devidamente notificados e as testemunhas arroladas nas fases iniciais foram ouvidas, de modo que o processo segue seu rito, nos termos da legislação aplicável, assegurando-se pleno exercício dos princípios do contraditório e da ampla defesa".
O órgão argumentou, por fim, que a "apuração ocorre com responsabilidade, transparência e respeito às garantias legais, objetivando esclarecer os fatos de forma técnica e imparcial".
Não há prazo definido para decisão sobre as condutas dos policiais.
QUEM SÃO OS POLICIAIS ACUSADOS?
1 - Cleidio Graf Gonçalves Torreiro (comissário aposentado)
Apontado na investigação como "o grande mentor/articulador" do desvio de armas, munições e acessórios. Detinha acesso irrestrito à armaria da Core. "Sem qualquer justificativa, frequentava aos sábados e domingos a armaria. Manipulava planilhas com a inserção e supressão de dados. Utilizava intermediários na comercialização”, pontuou relatório da Polícia Civil.
2 - José Maria Sampaio Filho (comissário aposentado)
Foi reconhecido por uma testemunha por ter, em três momentos, "repassado grande quantidade de munição comercializada", que se destinou a uma facção criminosa.
3 - Josemar Alves dos Santos (comissário aposentado)
Investigação apontou que ele auxiliava Cleidio no desvio das armas, munições e acessórios, manipulando as informações em planilhas no setor administrativo.
4 - Edson Pereira da Silva (comissário na ativa)
Segundo as investigações, "faltou com dever funcional realizando pesquisas no sistema integrado da Polícia Civil para integrantes da organização criminosa, justamente de um desafeto que eles estavam procurando para matar". (Via: Ronda Jc)
