O empresário João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, afirmou em delação premiada fechada com a Procuradoria-Geral da República (PGR) que fundos de investimentos administrados pela empresa foram usados para ocultar o pagamento de propinas de Daniel Vorcaro, do Banco Master, a autoridades públicas. A colaboração foi concluída em agosto e enviada na última semana ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), onde aguarda validação. A informação é da Folha de São Paulo.
Segundo pessoas com conhecimento da colaboração, Mansur descreve a participação da Reag e dos fundos de investimento em operações ligadas ao esquema do Banco Master, além da atuação de pessoas que teriam operado como laranjas de Vorcaro.
Delação aguarda validação
A Polícia Federal (PF) participou do início das negociações para o acordo, mas não deu continuidade às tratativas. Mansur começou a negociar com a PGR em fevereiro, e a colaboração foi concluída em agosto.
O empresário também havia tentado fechar um acordo com o Ministério Público Federal em São Paulo e, posteriormente, com o Ministério Público de São Paulo. As conversas anteriores não avançaram.
Para fechar a colaboração, Mansur se comprometeu, além da recuperação dos recursos desviados, a pagar uma multa de R$ 40 milhões, conforme informação divulgada pelo Uol.
Recursos teriam sido enviados ao exterior
De acordo com os investigadores, boa parte do dinheiro desviado no esquema ligado ao Banco Master está fora do Brasil, em offshores, empresas registradas fora dos países de seus proprietários, normalmente em paraísos fiscais.
A colaboração de Mansur fornece informações sobre como as operações financeiras teriam sido realizadas, onde estariam recursos enviados para o exterior e como os valores poderiam ser recuperados.
Segundo o material, o acordo também permite que os recursos sejam devolvidos ao Brasil sem a necessidade, em muitos casos, de negociações com autoridades estrangeiras. Isso pode evitar que países onde o dinheiro esteja localizado cobrem um percentual sobre os valores recuperados.
Reag entrou na mira das investigações
A Reag era uma das maiores gestoras independentes do país. Mansur deixou a presidência do Conselho de Administração da empresa em setembro de 2025, após a operação Carbono Oculto, que investigou a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) em atividades da economia formal.
A Reag estava entre os principais alvos da operação e foi acusada de ter hospedado recursos provenientes do crime em fundos sob sua gestão.
Em janeiro de 2026, Mansur foi alvo de buscas na segunda fase da operação Compliance Zero, que investiga os escândalos relacionados ao Banco Master. O empresário não foi preso e não está detido.
Na sequência, o Banco Central decretou a liquidação da Reag por comprometimento da situação econômico-financeira da corretora e por graves violações às normas que regulam as instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN).
As investigações da PF também apontaram Mansur como suspeito de ter utilizado fundos da gestora para ocultar o pagamento de propina em imóveis a Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB).
Defesa de Vorcaro diz não ter acesso aos autos
Procurada, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que não teve acesso aos anexos da colaboração de Mansur e, por isso, não poderia se manifestar. A defesa de Mansur não se manifestou.
Paulo Henrique Costa também tentou firmar um acordo de delação premiada com as autoridades, mas as negociações não avançaram. Atualmente, Costa e Vorcaro estão presos no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha.
Mansur e Vorcaro chegaram a tentar negociar acordos de colaboração de forma simultânea. Vorcaro teve duas propostas rejeitadas pela PF e pela PGR.
O advogado dos dois empresários à época era José Luís Oliveira Lima, conhecido como Juca. Mansur posteriormente trocou de defesa e passou a ser representado por Aloisio Lacerda Medeiros, especialista em crimes contra o sistema financeiro.
Outra delação envolve filme sobre Bolsonaro
Em agosto, a PGR também fechou acordo de delação premiada com Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Ele é dono da empresa que teria sido utilizada por Vorcaro para enviar recursos que financiariam o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Mineiro, que era próximo de Vorcaro, foi alvo de busca e apreensão na mesma fase da operação que atingiu Mansur. Segundo o material, ele afirmou ser um dos responsáveis por fazer remessas financeiras e conseguir dinheiro vivo para Vorcaro. Os valores, em algumas ocasiões, eram entregues em malas devido ao volume.
Investigadores avaliam que as duas delações, juntas, reduzem a capacidade de negociação de Vorcaro para uma nova tentativa de colaboração.
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