Sétimo
estado do Brasil com mais casos do novo coronavírus (38.511), 91% dos
municípios pernambucanos já foram afetados pela pandemia. Das 184 cidades,
apenas 20 não têm registros da doença, localizadas sobretudo no Sertão. Diante
deste quadro, a reportagem do Diário de Pernambuco foi em busca dos motivos por
trás deste cenário onde não há ocorrências da Covid-19 e conversou com Neison
Freire, pesquisador do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a
Pesquisa Social (Cieg) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), responsável por
coordenar um painel que mapeia o alastramento do vírus no estado.
Os
municípios, sem casos do coronavírus, de acordo com boletim da Secretaria
Estadual de Saúde da última quinta-feira são os seguintes: Beijinho, Ingazeira,
Solidão, Calumbí, Flores, Manari, Belém de São Francisco, Manari, Cedro,
Mirandiba, Verdejante, Dormentes, Santa Maria da Boa Vista, Exu, Granito, Santa
Filomena, Moreilândia, Iati, Calçado e Salgadinho.
Antes
de tudo, Neison alerta para dois fatores que contribuem para a falta de
ocorrências. Primeiro, o fato de que 90% deles não estão às margens de rodovias
federais. “Menos circulação de pessoas e mercadorias. Isso é um fator
importante: o isolamento geográfico”, afirmou. Os únicos municípios com
trânsito nas rodovias são Belém de São Francisco (BR-316) e Exu (BR-122).
“Mesmo assim eles estão em rodovias de baixa movimentação em comparação com a
BR-232 ou BR-101”, explicou.
“Menos
gente e menos circulação de pessoas, menos trocas com grandes centros
regionais”.
O
segundo ponto abordado pelo coordenador é o fato de as populações serem de
pequeno porte, todas abaixo de 20 mil habitantes. “Menos gente e menos
circulação de pessoas, menos trocas com grandes centros regionais. Então são
populações que vivem do seu entorno, do seu comércio com sítios”. Além disso,
Neison trouxe outros três pontos, com base em uma pesquisa realizada pela
Fundaj durante o mês de maio: a rapidez e rigidez das prefeituras em questão. E
para isso, foi necessário um comparativo com 20 cidades que registraram
ocorrências, levando em conta os maiores graus de variações dos casos. O
primeiro fator abordado foram as barreiras sanitárias. Ou melhor, a velocidade com
que foram instaladas. No grupo dos municípios sem contaminação, 80% inseriram
antes da primeira cidade do grupo de contaminados. “Eles não só instalaram
barreiras a mais tempo como tinha município que começou no início do
isolamento”, disse, sendo os casos de Angelim (desde 30 de março) e Santa
Filomena (desde 1º de abril). Enquanto isso, cidades com registros do vírus
utilizaram as barreiras, em média 22 dias antes.
Em
relação ao confinamento social, a pesquisa também avaliou, nos dois grupos, se
o comércio não essencial estava fechado. No grupo “sem” Covid-19, 11 municípios
responderam que “sim”, situação que já dura há aproximadamente 65 dias em
média. Já no grupo dos “com” Covid-19, 15 dos 20 municípios estão há
aproximadamente 55 dias com o comércio não essencial fechado.
Assim,
barreiras sanitárias, decretos de isolamento, fechamento do comércio, menor
densidade populacional e isolamento geográficos são os fatores que contribuem
para não haver ocorrências nos respectivos municípios. Não há um fator que se
sobrepõe, são todos complementarem. “Não é linear. No Sertão a localização é o
mais importante, mas no Agreste, que têm mais circulação, as barreiras são mais
importantes. É um conjunto de fatores”. A pesquisa também avaliou o período de
fechamento das escolas, mas como este ocorreu de maneira uniforme no estado –
no dia 18 de março-, não foi detectada diferença. O coordenador evitou traçar
um prognóstico se as 20 cidades vão permanecer ilesas pela pandemia. “Não
trabalho com previsão nem predição (previsão baseada em mapas). Porque é algo
novo, não temos elementos, um padrão conhecido. A pesquisa é para aprender com
os padrões. Nenhuma doença se espalhou tão rápido. O que posso dizer é que
ainda não chegamos ao pico da pandemia, então ele ainda vai continuar
crescendo”, concluiu. (Via DP)
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