E se for melhor Lula (PT) não ser candidato? Sim, essa pergunta estaria sendo feita novamente nos corredores do Palácio do Planalto e do Partido dos Trabalhadores. O motivo para isso é algo que já foi apontado aqui na coluna Cena Política no dia 31 de outubro de 2024 que é a preocupação com o "último capítulo de sua biografia".
Na época, aqui neste mesmo espaço, estava escrito assim: "Não é impossível que Lula (PT) desista de ser candidato em 2026. O presidente tentaria a reeleição para um quarto mandato e a vitória seria histórica para sua biografia. Mas as medidas de um termo valem sempre para as duas pontas do termo em si. E uma derrota seria um gigantesco desastre para a história que vão contar sobre ele".
De lá pra cá muita coisa aconteceu e o presidente chegou a se declarar candidato à reeleição, pontuando que só não seguiria em frente no caso de ser impedido pela própria saúde. Lula hoje tem 80 anos, mas corre, faz agachamentos públicos com pesos amarrados às pernas para quem tiver paciência de assistir e procura demonstrar vigor todo o tempo. Ainda assim, nos últimos dias, comentários sobre ele não ser candidato voltaram a circular em Brasília. Novamente por zelo biográfico.
Biografia sem vitória final
O caso é que a biografia de Lula está sendo escrita enquanto estamos aqui vivendo nossas vidas. E a questão é se esse livro vai servir ao PT do futuro caso termine com uma derrota para o filho de Jair Bolsonaro (PL). Desde que as pesquisas começaram a apontar Flávio Bolsonaro (PL) empatado e ultrapassando o atual presidente, essa pergunta voltou a ser feita por muita gente.
Herói
Costumo falar muito sobre "jornada de herói" neste espaço. É porque se trata de uma fórmula que ainda ativa muitos sentimentos na maior parte dos seres humanos que vivem na Terra. E é um erro acreditar que isso se deve apenas ao cinema de Hollywood. Os americanos apenas exploraram isso com muita inteligência e montanhas de dinheiro. Mas a sequência em que protagonistas reais e fictícios vão da "humildade resignada" até a "vitória incontestável" que suplanta todos os que duvidaram dele está presente de Shakespeare a Jesus Cristo.
PT e Lula
O PT comeu e bebeu de Lula nas últimas quatro décadas. Acomodou-se a essa rotina ao ponto de não permitir a formação de um sucessor nem quando ele foi condenado e preso, porque até na cadeia era mais cômodo ao PT viver dele do que ter que construir uma nova liderança entre inveja, ciúme e ambição. Dentro dessa lógica, o que é mais lucrativo para o PT quando seu maior sustento chega aos 80 anos sem favoritismo pleno na disputa de um quarto mandato? A biografia de um herói que "salvou a democracia em 2022 e cumpriu sua missão voltando a se recolher agora que o perigo maior passou" ou de um político que "contou com aliados na Justiça para prender seu maior adversário e fez um governo tão ruim que acabou sendo derrotado pelo filho dele".
Hipóteses
Pessoalmente, não concordo que nenhuma das duas hipóteses são verdadeiras, mas são opções para o capítulo final de Lula que estão sobre a mesa hoje. E o risco da segunda possibilidade, de ser derrotado, não é mais tão pequeno.
Para sustentar a ideia de que Lula venceu, mesmo que não dispute a reeleição, basta criar uma narrativa na qual a moderação de Flávio Bolsonaro é uma "vitória lulista". Algo como, "Lula venceu ao ponto de ter enquadrado os radicais e feito com que a extrema-direita fosse obrigada a recuar". Com o palavreado que o Lula gosta de usar em seus discursos: "Lula amansou o burro chucro e agora pode repousar".
Acomodação
Em outubro de 2024, quando escrevi sobre esse problema, disse que Lula precisava cumprir alguns requisitos importantes caso quisesse tentar uma reeleição, ou deveria começar a formar um sucessor.
"A resposta virá em 2025. A eleição municipal mostrou que o caminho da esquerda é pelo centro, com Kassab (PSD), com o MDB e até com o Republicanos (que vai fazer o presidente da Câmara).Os partidos desse segmento estão empoderados. Se Lula conseguir agradar essas siglas, garantir que o PT pare de atrapalhar, conseguir isolar o bolsonarismo e apresentar resultados econômicos palpáveis, a candidatura e a reeleição são quase certas", dissemos aqui 18 meses atrás.
Lula não conseguiu fazer absolutamente nada do que foi prescrito acima. E agora? (Via: Jc)
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