Mesmo ostentando uma rotina de luxo nas redes sociais, a falsa advogada Tatiane da Silva Alves Ferreira, 37 anos, recebeu R$ 8.100 em auxílio emergencial durante a pandemia. Ela foi indiciada pela Polícia Federal (PF) por integrar um esquema conhecido como “leva e traz”, utilizado para facilitar a comunicação entre faccionados presos no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF).
Segundo apuração da coluna, o atual companheiro de Tatiane, Odianel Pereira de Sousa Júnior, integrante da facção Bonde do Maluco (BDM), também foi beneficiado com R$ 3.300 do auxílio.
Ele também é réu por organização criminosa e responde por posse de arma de fogo encontrada em sua residência no dia da operação policial.
O Metrópoles apurou ainda que Tatiane foi casada e teve uma filha com William Alves Ferreira, 39, apontado pelas investigações como chefe da facção Comboio do Cão (CDC).
As investigações apontaram que Tatiane auxiliava na comunicação de membros da facção Bonde do Maluco (BDM) com Jackson Antônio de Jesus Costa, um dos líderes da organização criminosa que está preso no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília (DF). Ele é responsável pela morte do policial federal Lucas Caribé, em 2023.
Relembre quem é Jackson, líder de facção
Líder do Bonde do Maluco (BDM), Jackson Antônio de Jesus Costa está no centro de um histórico de crimes que inclui tráfico de drogas e envolvimento na morte do policial federal Lucas Caribé, em setembro de 2023, durante uma operação policial em Salvador;
Conhecido como Caboclinho, Jackson Antônio é um dos principais alvos da Operação Cravante, desencadeada em outubro de 2024;
Após ser preso na Papuda, Jackson Antônio continuou a exercer influência no tráfico, coordenando as atividades do BDM;
Essa articulação permitiu que ele ampliasse a rede criminosa e conseguisse se comunicar com outros detentos, bem como gerenciar atividades ilícitas, mesmo atrás das grades.
A posição dele no mundo do crime se fortaleceu após integrar e auxiliar o Primeiro Comando da Capital (PCC) dentro da penitenciária, com uso de conexões com advogados para manter o controle sobre as operações do tráfico.
Em 2024, a Operação cumpriu seis mandados de prisão e nove de busca e apreensão, na capital do país e na Bahia
Informações repassadas pela Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal (Seape) mencionam indícios de que diversas pessoas teriam se passado por um advogado, com anuência dele, para se comunicar com detentos do sistema prisional do DF.
Falsa advogada
Bacharel em direito, Tatiane chegou a realizar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e entrou com ação judicial para revisão da nota, mas teve o pedido negado. Mesmo sem autorização para atuar, ela se apresentava como advogada, enganava clientes e utilizava o nome “Tatiane Adv Silva” no perfil do WhatsApp.
Nas redes sociais, a investigada se descreve como pós-graduanda em direito penal dogmática moderna, diz ser “apaixonada por justiça” e aparece ostentando roupas, bolsas e relógios de luxo.
Tatiane chegou a ficar foragida após a expedição de um mandado de prisão, posteriormente revogado.
A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) foi acionada para falar sobre o exercício ilegal da profissão feito por Tatiane, mas não se pronunciou até a atualização mais recente desta matéria. Procurada pela reportagem, Tatiane não havia sido localizada até a última atualização deste texto.
Conexões com “gerente do tráfico”
O relatório da Polícia Federal (PF) anexou registros de conversas e ligações de Tatiane com Erica Priscilla da Cruz Vitorino, advogada apontada como “gerente do tráfico” e namorada de Marlos Araújo Souza, conhecido como “Bolão”. Ele era líder da organização.
Acusada de facilitar a comunicação de membros da facção Bonde do Maluco (BDM), a advogada Erica Priscilla da Cruz Vitorino é namorada de Marlos Araújo Souza, conhecido como “Bolão” e apontado como líder da mesma organização.
Ex-mulher de policial e advogada inscrita na OAB, Erica também tem passagens na polícia por crimes de tráfico de drogas e comércio ilegal de armas de fogo.
Em outubro de 2024, Erica foi presa em Serrinha (BA) por facilitar a comunicação entre os líderes da facção e os membros que estão soltos. O Metrópoles apurou que Erica não está mais presa na Bahia e responde por organização criminosa em liberdade.
Por meio de mensagens trocadas pelo WhatsApp, a advogada atuava como uma “gerente do tráfico” na Bahia, segundo a PF. Erica é apontada como responsável por promover o comércio ilegal de drogas e também vendas de armas. Ela utilizava o nome no perfil de “Deus de Israel” para tentar esconder a sua identidade.
Além de Erica e Tatiane, e o líder do Bonde do Maluco Jackson, outras sete pessoas respondem ao processo – entre as quais, advogados que facilitavam a comunicação.
Erica, quatro advogados e um estagiário de direito tiveram suspensos o direito de exercer a profissão de advogado.
O processo corre em sigilo no Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT). (Via: Na Mira)

