A Polícia Federal já havia
elaborado um plano de contingência para prender Lula caso ele não se entregasse.
O Plano B seria colocado em prática na manhã deste domingo, depois das 6h. Agentes federais invadiriam a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC
paulista, para executar o mandado de prisão emitido por Sergio Moro. Em contato
com dirigentes da PF, o juiz da Lava Jato revelou-se irritado com a pajelança
política promovida por Lula em São Bernardo do Campo.
O acordo que evitou a detenção de Lula na marra foi costurado no eixo São
Bernardo-Brasília-Curitiba. Ex-ministro da Justiça no governo de Dilma Rousseff,
o petista José Eduardo Cardozo teve papel central na negociação. Sua
participação injetou ironia no processo, pois Lula e a cúpula do petismo eram
críticos ferozes da atuação de Cardozo como ministro. Na época, queriam que ele
domasse a Polícia Federal, anestesiando a Lava Jato. A corrosão de Lula ajuda a
entender essa inquietação. O petismo sabia o que fizera no verão passado.
O acordo para que Lula se rendesse foi esboçado na sexta-feira, depois que
a Polícia Federal recebeu a informação de que o condenado não se apresentaria
voluntariamente em Curitiba até as 17 horas, como Moro determinara. Agentes
federais estavam acantonados secretamente nas proximidades do sindicato desde a
noite de quinta-feira. Mas a PF decidira que só invadiria o bunker de Lula se não houvesse outra alternativa.
Ainda assim, com ordem expressa de Moro.
Ficou acertado que a rendição de Lula ocorreria no sábado, depois de uma
missa pelo aniversário de sua mulher, Marisa Letícia. Se estivesse viva, ela
completaria 68 anos. O aconselhamento de Cardozo foi considerado vital. Havia
ao redor de Lula quem sugerisse levar a “resistência” às últimas consequências
— gente como a presidente do PT, Gleisi Hoffmann e o presidenciável do
PSOL, Guilherme Boulos.
Coube a Cardozo esclarecer as consequências de uma bravata. Moro poderia,
por exemplo, decretar uma prisão preventiva, o que dificultaria o esforço da
defesa para abreviar a permanência de Lula em cana. O juiz não hesitaria em
endurecer o jogo. Outras vozes sensatas ecoaram as advertências do ex-ministro
de Dilma. E Lula autorizou o fechamento do acordo.
O acerto não incluía a conversão da missa num comício. Tampouco previa que
Lula discursasse. Muito menos que ele achincalhasse o juiz e os membros da
força-tarefa da Lava Jato. O entendimento só não entornou porque o orador teve
o cuidado de incluir no discurso uma referência à sua decisão de cumprir o
mandado judicial.
Terminado o comício, prepostos de Lula pediram a inclusão de um adendo no
acordo. O pajé do PT queria almoçar com a família antes de se entregar. O
repasto com os familiares foi autorizado, desde que a rendição ocorresse até as
16h.
Com atraso, Lula saiu do prédio do sindicato pouco antes das 17h. Entrou
num carro que estava estacionado no pátio. Seguiria para um terreno vizinho,
onde veículos da Polícia Federal o aguardavam. Mas um grupo de militantes
postou-se defronte do portão, obstruindo a passagem do automóvel, que deu
marcha à ré. Lula desceu. E enfurnou-se novamente no sindicato. Seguiram-se
momentos de tensão.
A cúpula da PF e Moro enxergaram na resistência um quê em encenação. Lula
recebeu um ultimato. Tinha meia hora para se entregar. Os agentes federais
destacados para conduzi-lo preso seriam desmobilizados às 19h. Um ministro de
Temer, que acompanhava as tratativas, exasperou-se: “Com 99% da operação
concluída, surge essa recaída lusitana”, lamentou.
Por um instante, o governo receou que a PF tivesse de acionar o seu Plano
B. Uma invasão do sindicato envolvia riscos. Agredidos por militantes, os
policiais teriam de reagir. Havia grande preocupação com a integridade física
de Lula. Súbito, às 18h40, quando faltavam 20 minutos para expirar o ultimato
dado pela PF, Lula saiu novamente do prédio. Cruzou a pé os cerca de 50 metros
de militantes que o separavam do terreno onde se entregaria, finalmente, à
equipe da Polícia Federal. Houve alívio em Brasília. (Via: Blog do Josias de Souza)
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