O surto de demência autoritária
de Marco Aurélio deve ser neutralizado de imediato pelos juízes de verdade
Por
Augusto Nunes, na Veja
O prenome de imperador romano, a vaidade tão pesada que deve ser calculada
em arrobas, o olhar de quem treina para virar estátua, a arrogância que
identifica os que acham que a toga é que deve orgulhar-se de cobrir-lhe o
corpo, o prazer sensual com que ouve o som da própria voz entoando expressões
ignoradas pela plebe — tudo isso, junto e misturado, subiu de vez à cabeça de
Marco Aurélio Mello. E ordenou-lhe que caprichasse na liminar que, se fosse
levada a sério pela Justiça brasileira, colocaria em liberdade todos os
bandidos que cumprem pena depois de condenados em segunda instância.
Que Nero, que nada: sem uma Roma para incendiar, Marco Aurélio I, o
Imperador das Cadeias, resolveu destruir com uma canetada a jurisprudência
recentemente reafirmada pelo plenário do Supremo Tribunal Federal, a segurança
jurídica e a esperança no triunfo da lei sobre o crime, e da honradez sobre a
falta de vergonha na cara. O ministro coleciona molecagens, sentenças idiotas,
chiliques de debutante e odes ao descaramento desde que foi presenteado com uma
toga pelo primo Fernando Collor. Até esta assombrosa quarta-feira, contudo, era
possível acreditar que mesmo para um marcoauréliomello existem limites.
Não existem, atesta a liminar produzida na véspera do recesso do
Judiciário. O latinório ridículo e algumas condicionantes malandras procuram
inutilmente camuflar o objetivo do autor: tirar Lula da cadeia. As restrições
inócuas não passam de um truque diversionista concebido para ocultar as
aberrações decorrentes da torpeza original. Com o ex-presidente condenado por
corrupção e lavagem de dinheiro, recuperariam o direito de ir e vir (e roubar,
e matar, e revogar por dias ou semanas a ordem legal) uma imensidão de
assassinos, estupradores, latrocidas e, claro, delinquentes de estimação de
Marco Aurélio e seus comparsas.
A afronta ao país que presta deve ser barrada de imediato pela reação da
banda sadia do STF, do Ministério Público e dos magistrados que ouvem a voz da
Justiça, não os sussurros dos que conspiram contra o império da lei. A liminar
de Marco Aurélio merece ser atirada à lata de lixo mais próxima por juízes de verdade,
que não se curvam bovinamente a determinações intoleráveis. O Brasil se tornará
bem melhor se for socorrido por uma variação da boa e velha desobediência
civil. Tal arma, manejada com altivez e destemor, já sufocou no nascedouro
tantos surtos de demência autoritária. É hora de usá-la para expulsar Marco
Aurélio do seu trono imaginário.
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